Da torneira seca à água com pressão: obras transformam bairros do Rio, Duque de Caxias, Magé, Quintino e Cascadura e Barra do Piraí
Durante anos, a falta d’água obrigou famílias a guardar baldes dentro de casa, comprar galões e reorganizar horários de banho, limpeza e preparo de alimentos. Em alguns pontos, até unidades de saúde passaram a depender de caminhões-pipa para continuar funcionando.Agora, obras realizadas em diferentes partes do Estado do Rio começam a alterar esse cenário.Um levantamento feito pelo Portal EcoSerrano reuniu intervenções divulgadas separadamente por duas concessionárias e encontrou um movimento mais amplo: novas estações, bombas e redes estão levando maior pressão e regularidade a bairros da capital, da Baixada Fluminense e do interior.Cada obra tem tamanho e finalidade diferentes. Juntas, porém, revelam uma mudança que ultrapassa números, quilômetros de tubulação e valores investidos. Ela aparece quando a água chega ao andar mais alto de uma casa, quando uma família deixa de comprar galões ou quando um equipamento hospitalar pode operar sem o medo de desabastecimento.Os avanços já alcançam dezenas de bairros. Em uma das cidades, uma nova estação acrescentará mais de oito milhões de litros de água tratada por dia ao sistema. Em outra, uma intervenção reduziu a dependência de caminhões-pipa em uma unidade de hemodiálise.
Duque de Caxias terá mais 8,6 milhões de litros de água por dia
A maior obra entre as intervenções reunidas pelo EcoSerrano está no Parque Império, em Duque de Caxias.A nova Estação de Tratamento de Água está na fase final de construção e, quando entrar em funcionamento, acrescentará mais de 8,6 milhões de litros de água tratada por dia ao sistema de abastecimento.A previsão é de que aproximadamente 40 mil pessoas sejam beneficiadas no Parque Império e em bairros próximos. A unidade deverá aumentar a capacidade de distribuição, reduzir oscilações e dar maior segurança ao fornecimento durante períodos de estiagem.O impacto esperado é especialmente importante em uma região marcada historicamente por baixa pressão e interrupções.Desde novembro de 2021, mais de 36 mil moradores de Duque de Caxias passaram a receber água tratada regularmente pela primeira vez, segundo a Águas do Rio. Nesse período, mais de 100 quilômetros de redes foram implantados ou substituídos e 67 sistemas de bombeamento entraram em operação.Também houve recuperação de reservatórios e instalação de equipamentos que ajudam a empurrar a água pela rede, permitindo que ela chegue a pontos mais distantes ou elevados.
Quintino deixa para trás períodos de até 15 dias sem água
Na Zona Norte do Rio, os efeitos de intervenções recentes já começaram a ser percebidos.Em Quintino, moradores de áreas elevadas e localizadas nas chamadas pontas de rede enfrentavam dificuldades para receber água com pressão suficiente. Para resolver o problema, foi instalada uma estação elevatória na Rua Amália.O sistema utiliza um equipamento conhecido como booster. Ele funciona como uma bomba que aumenta a pressão da água e facilita a chegada do abastecimento a imóveis situados em ruas íngremes ou distantes dos principais pontos da rede.A estrutura atende mais de 3,6 mil pessoas, incluindo moradores da Rua Ouro Preto.Álvaro Rabello, de 58 anos, contou que chegou a permanecer 15 dias sem água. A família precisava armazenar o recurso até mesmo para tomar banho. A situação também atingia um lar de idosos existente na rua.Depois da instalação do equipamento, segundo o morador, o abastecimento passou a chegar regularmente e com uma pressão que ele nunca havia visto no local.
Novas tubulações mudam a rotina em Cascadura
A poucos quilômetros dali, Cascadura enfrentava outro tipo de problema. A rede existente já não conseguia acompanhar de maneira adequada o crescimento e a concentração de moradores.As intervenções foram realizadas nas ruas Palatinado, Eufrásio Correia, Tomaz Alves e Travessa Goiás. Ao todo, foram implantados 1.440 metros de tubulações, além da interligação de trechos já existentes.A obra beneficia aproximadamente 1,4 mil pessoas.Moradora da Rua Palatinado, Eliane Cristina da Rocha relembra que a família chegou a passar dois dias sem receber água. Com três filhas e cinco netos, a saída era comprar galões para manter as necessidades básicas da casa.Depois da obra, ela afirma que a água passou a chegar com mais força e que os problemas deixaram de fazer parte da rotina.A mudança também foi percebida por comerciantes. Em estabelecimentos que dependem de água para limpeza, produção de alimentos ou atendimento ao público, um abastecimento irregular interfere diretamente no funcionamento e nas vendas.
Obra alcança 13 bairros de Magé
Em Magé, uma intervenção realizada no Centro aumentou a capacidade de distribuição e reforçou o abastecimento de cerca de 18 mil pessoas.Além do Centro, foram alcançados os bairros Vila Esperança, BNH, Canal, Vila da Liberdade, Comendador Reis, Flexeiras, Tênis Clube, Vila Vitória, Vila Nova, Lagoa, Mundo Novo e Roncador.A importância da obra fica mais evidente no Centro de Nefrologia Mageense. Antes, a unidade precisava recorrer a caminhões-pipa para garantir o funcionamento das máquinas de hemodiálise.O tratamento depende diretamente de água em quantidade e qualidade adequadas. Uma interrupção prolongada pode comprometer o atendimento dos pacientes.Segundo Cleiton de Lima, responsável pela manutenção dos equipamentos e pela logística da unidade, o cenário mudou. As duas cisternas, com capacidade de 30 mil litros cada, passaram a permanecer abastecidas, trazendo mais segurança para a operação.Desde o começo da concessão, mais de 11 mil moradores de Magé passaram a receber água tratada regularmente pela primeira vez. Cerca de 114 mil pessoas já foram alcançadas por intervenções no sistema.O município também passou a contar com sua primeira Estação de Tratamento de Água. A unidade produz 330 litros por segundo e beneficia inicialmente cerca de 65 mil pessoas.
Piraí avança em outra parte essencial do saneamento
Nem todas as melhorias reunidas pelo EcoSerrano estão ligadas diretamente à chegada da água nas torneiras.Em Piraí, a intervenção ocorre no bairro Country e amplia a coleta de esgoto. A Rio+Saneamento iniciou a construção de uma Estação Elevatória de Esgoto, responsável por bombear os resíduos coletados até a Estação de Tratamento 4 de Abril.A obra beneficiará diretamente cerca de 240 pessoas e faz parte de um investimento de R$ 1,6 milhão. O projeto também incluiu a implantação de 1,2 quilômetro de rede coletora, etapa já concluída.Para a execução dos serviços, um trecho da Avenida dos Acadêmicos, em frente à praça e no sentido da Rua Waldemar Antônio Silva, terá interdição parcial durante aproximadamente 30 dias.Uma das faixas permanecerá aberta. Agentes deverão orientar motoristas e pedestres, e a área receberá sinalização.O tratamento adequado do esgoto reduz a contaminação do solo e dos cursos d’água, diminui riscos à saúde e evita que o avanço do abastecimento seja acompanhado pela permanência de outro problema histórico.
A mudança que os números não mostram sozinhos
Somadas, as obras apresentadas nesta reportagem alcançam diretamente mais de 60 mil pessoas, considerando apenas as intervenções recentes em Duque de Caxias, Quintino, Cascadura, Magé e Piraí.O número ajuda a dimensionar o investimento, mas não explica completamente o efeito sobre a população.A diferença está na casa que deixa de armazenar água para o banho. Na mãe que não precisa mais comprar galões para atender filhos e netos. No comércio que consegue abrir sem receio de ficar com a torneira seca. E na unidade de saúde que mantém suas máquinas funcionando sem esperar a chegada de um caminhão-pipa.Desde 2021, a Águas do Rio informa ter investido R$ 6,3 bilhões nos municípios atendidos. A empresa afirma que 3,5 milhões de pessoas foram beneficiadas por melhorias e que 1,8 mil quilômetros de redes de água foram implantados ou substituídos.Ainda existem bairros e municípios enfrentando falhas, baixa pressão e interrupções. As obras reunidas pelo EcoSerrano não significam que o problema do abastecimento tenha sido resolvido em todo o estado.Elas mostram, no entanto, que uma transformação relevante já está em curso em diferentes pontos do Rio — e que, para milhares de moradores, ela começa a ser percebida no gesto mais simples: abrir a torneira e encontrar água.