Norte Fluminense: Mar avança e já destruiu mais de 500 imóveis

Processo considerado extremo por pesquisadores já destruiu centenas de lares; estudo de R$ 5,6 milhões busca apontar alternativas 

A paisagem de Atafona, no município de São João da Barra, perdeu ruas, casas, redes de esgoto e estruturas de energia elétrica para o oceano ao longo das últimas décadas. Onde moradores circulavam por avenidas asfaltadas e calçadões, hoje existem água, areia e ruínas.

O processo de erosão costeira começou a ser observado na região na década de 1950 e ganhou força a partir dos anos 1960. Levantamentos reunidos ao longo dos anos indicam que mais de 500 imóveis foram destruídos em uma faixa de aproximadamente dois quilômetros.

A velocidade não é uniforme, mas há trechos onde o recuo da linha de costa supera cinco metros por ano. Em alguns períodos, o avanço chegou perto de seis metros anuais, colocando Atafona entre os casos mais extremos de erosão do litoral brasileiro.

A transformação não ocorreu de uma única vez. O mar retirou gradativamente a faixa de areia, alcançou ruas, comprometeu terrenos e deixou construções sem sustentação. Para muitas famílias, a saída de casa aconteceu quando os imóveis já estavam cercados pelas ondas.

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Duas quadras desapareceram diante de uma casa

A dimensão da mudança pode ser compreendida pela história da moradora Sônia Ferreira. Quando a família construiu sua casa, em 1978, havia dois quarteirões entre o terreno e a praia.

À frente da residência também passavam a Avenida Atlântica, um calçadão e uma extensa faixa de areia. Naquele momento, o mar sequer podia ser visto da casa.

Quatro décadas depois, a água já alcançava o muro dos fundos. Em 2019, Sônia deixou o imóvel principal e passou a viver em uma construção menor no mesmo terreno.

O oceano continuou retirando a areia sob os muros e as estruturas. Sem sustentação, partes da construção ficaram expostas e próximas do desabamento.

A colocação de pedras para proteger apenas um terreno também poderia alterar a força das ondas e deslocar o problema para as propriedades vizinhas. Essa é uma das razões pelas quais intervenções isoladas não são consideradas suficientes para enfrentar um processo costeiro dessa dimensão.

Famílias perderam imóveis e memórias

As casas destruídas não eram apenas construções de veraneio. Parte delas reunia décadas de convivência familiar e lembranças de diferentes gerações.

Em 2022, João Waked Peixoto acompanhava o avanço do mar em direção ao imóvel construído pela família. Em apenas 15 dias, segundo o relato feito à agência France-Presse, a água teria avançado entre três e quatro metros naquele trecho.

A família não conseguia prever quando precisaria abandonar definitivamente a residência. Muros que continuavam de pé em uma semana poderiam desaparecer durante a maré seguinte.

Até 2022, centenas de imóveis ainda ocupados permaneciam em áreas consideradas de risco. Desde então, a linha da costa continuou em transformação.

Não existe um prazo único para a perda das construções. O avanço depende da localização, das marés, da direção das ondas, das ressacas e das características do terreno.

Erosão de Atafona é considerada extrema

O geólogo e professor Eduardo Bulhões, coordenador da Unidade de Estudos Costeiros da Universidade Federal Fluminense, classifica o processo de Atafona como crônico e extremo.

Crônico porque se prolonga por décadas. Extremo porque apresenta taxas superiores a cinco metros por ano em determinados pontos.

Durante uma apresentação realizada na Câmara de São João da Barra, o pesquisador afirmou que não há indicação científica de que o processo vá parar naturalmente. Segundo ele, a erosão tem origem natural, mas foi agravada pelas interferências humanas na costa e na bacia do Rio Paraíba do Sul.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia, com participação de pesquisadores da UFF, analisou a linha de costa entre 1954 e 2018. O trabalho identificou padrões de erosão extrema e severa em Atafona, com tendência de expansão da área erosiva em direção ao sul.

A poucos quilômetros dali, a dinâmica é diferente. Em Grussaí, os pesquisadores encontraram áreas mais estáveis e com tendência de acumulação de sedimentos. Isso demonstra que o litoral não recua da mesma forma em todos os pontos.

Menos areia chega à foz do Paraíba do Sul

Atafona fica exatamente na foz do Rio Paraíba do Sul. O encontro entre o rio e o Oceano Atlântico é um dos elementos centrais para entender a erosão.

Em condições naturais, o Paraíba do Sul transporta areia e outros sedimentos até sua desembocadura. Esse material ajuda a alimentar a praia e a recompor parte do que é retirado pelas ondas.

Ao longo das décadas, barragens, reservatórios, transposições, mineração e retirada de água para abastecimento, agricultura e geração de energia alteraram a vazão e o transporte de sedimentos pelo rio.

Com menos areia chegando à foz, o oceano retira mais material do que o rio consegue devolver. A praia perde sua capacidade de recomposição e a linha da costa recua.

Pesquisas também apontam uma correlação entre a vazão máxima do Paraíba do Sul e o comportamento da praia. Quando o rio apresenta maior vazão, há tendência de crescimento da faixa de areia no ano seguinte. Quando a vazão cai, a erosão tende a aumentar.

Mudanças climáticas agravam o problema

A redução do transporte de sedimentos não explica sozinha a transformação de Atafona. O fenômeno resulta da combinação de condições naturais, ocupação do litoral e interferências humanas.

No longo prazo, a elevação do nível do oceano associada às mudanças climáticas amplia a exposição das áreas costeiras.

Em períodos menores, ressacas, ondas mais fortes, chuvas intensas e secas prolongadas alteram o equilíbrio entre o rio e o mar.

A ocupação próxima à praia também retirou dunas e vegetação que funcionavam como proteção natural. Quando essas barreiras desaparecem, as ondas encontram menos resistência para avançar sobre os terrenos.

Não existe, portanto, uma única causa ou uma solução simples que possa interromper imediatamente o processo.

Pesca também sofre com mudanças na foz

A erosão afeta a atividade pesqueira, uma das bases econômicas e culturais de Atafona.

A redução da vazão e as mudanças na foz dificultam a entrada e a saída das embarcações. O acúmulo de areia em determinados pontos pode fechar passagens e obrigar pescadores a alterar rotas.

A entrada de água salgada no rio também interfere no ambiente e na distribuição das espécies. Esses efeitos se somam à perda de imóveis, vias públicas e estruturas urbanas.

Para os pescadores, o problema não está restrito às casas ameaçadas. Ele também modifica o acesso ao trabalho e as condições de navegação.

Estudo de R$ 5,6 milhões começou em 2026

Depois de anos de discussões, São João da Barra iniciou em julho de 2026 a elaboração de um Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental para Atafona e a praia do Açu.

O investimento informado é de R$ 5,6 milhões, abaixo da estimativa inicial de aproximadamente R$ 6,4 milhões. O trabalho terá duração prevista de 18 meses.

A empresa contratada deverá realizar levantamentos de campo, modelagem computacional e análises de alternativas para reduzir os impactos da erosão.

Entre as possibilidades que serão avaliadas estão o preenchimento artificial da praia, conhecido como engordamento, e medidas para estabilizar a barra do Rio Paraíba do Sul.

O estudo não representa o início de uma obra de contenção. Ele servirá para definir quais intervenções são técnica, econômica e ambientalmente possíveis.

A elaboração desse documento também é uma exigência do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para que o município possa buscar recursos estaduais e federais destinados a futuras obras.

Não existe solução imediata

Propostas apresentadas em anos anteriores perderam validade técnica diante da continuidade da erosão e das mudanças na linha da costa. Qualquer novo projeto precisa considerar a situação atual de Atafona.

Segundo Eduardo Bulhões, intervenções capazes de reduzir o problema provavelmente precisarão movimentar grandes quantidades de areia.

O preenchimento artificial da praia é utilizado em diferentes partes do mundo, mas não representa uma ação definitiva. A areia colocada na costa pode precisar ser reposta com o passar do tempo.

Obras rígidas, como grandes barreiras de pedras ou concreto, também exigem cautela. Dependendo do projeto, elas podem proteger um trecho e intensificar a erosão em outro.

Enquanto o estudo avança, o mar continua alterando a paisagem. A conclusão técnica está prevista para 2027, quando o município deverá saber quais alternativas poderão seguir para as etapas de licenciamento, elaboração de projeto e busca de recursos.

Fontes

Nível de atenção

🟡 Atenção permanente: imóveis próximos à linha de erosão permanecem expostos a ressacas, retirada repentina de areia e perda de sustentação.

Telefones úteis

Defesa Civil: 199
Para informar risco de desabamento, avanço da água sobre imóveis e outras situações relacionadas a desastres.

Corpo de Bombeiros: 193
Para salvamentos e emergências com risco imediato.

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