Minionda de calor atinge o RJ, mas vai durar poucos dias

O calor que adoece: Rio está em lista das cidades mais ameaçadas do mundo

Capital e cidades vizinhas podem ser alvo de eventos extremos. Veja os detalhes na matéria

Para parte da população, um dia de calor intenso pode terminar na praia, diante do ar-condicionado ou em um ambiente protegido do sol. Para outra parte, significa horas dentro de um ônibus cheio, trabalho a céu aberto, paredes que acumulam calor durante o dia e um quarto que continua abafado mesmo depois de anoitecer. É essa diferença que ajuda a colocar o Rio de Janeiro entre as grandes cidades mais ameaçadas do mundo pelo calor extremo. Um estudo ligado à Universidade de Oxford avaliou 205 centros urbanos com mais de um milhão de habitantes e posicionou a capital fluminense em 83º lugar no ranking global de vulnerabilidade. O levantamento não mediu apenas onde os termômetros podem subir mais. Também considerou as condições sociais, econômicas e urbanas que determinam quem consegue se proteger e quem permanece exposto. O Rio aparece ao lado de outras dez cidades brasileiras: Manaus, Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre. Manaus ocupa a pior posição entre as brasileiras, no 27º lugar mundial. A presença da capital fluminense na lista não significa que todo o município enfrente o mesmo perigo. O risco muda de acordo com o bairro, a quantidade de árvores, o tipo de construção, a circulação de vento, a proximidade de áreas verdes e a renda de cada família. Em uma mesma tarde, a sensação de quem atravessa uma rua arborizada pode ser completamente diferente da enfrentada por quem mora cercado de concreto, telhados que absorvem calor, poucas áreas sombreadas e grande concentração de veículos. Essa diferença transforma o CEP em parte da ameaça.

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O calor não termina quando o sol se põe

Casas pequenas, com ventilação insuficiente e materiais que acumulam temperatura, podem continuar quentes por muitas horas. Quando a madrugada não consegue resfriar o ambiente, o corpo perde o período de recuperação necessário antes do dia seguinte. Para idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças cardíacas, respiratórias, renais, diabetes ou hipertensão, essa exposição prolongada pode produzir consequências mais graves. O calor excessivo pode provocar desidratação, queda de pressão, exaustão, confusão, agravamento de doenças preexistentes e aumento da procura por unidades de saúde. No Estado do Rio, períodos recentes de temperaturas extremas já levaram a Secretaria de Saúde a orientar os 92 municípios e reforçar estruturas de atendimento. Mas a proteção não depende apenas de saber que será um dia quente. É preciso ter água disponível, uma casa ventilada, sombra, condições de interromper atividades físicas e algum equipamento para refrescar o ambiente. Uma pessoa que trabalha na construção civil, vende produtos na rua, entrega mercadorias, recolhe resíduos ou espera transporte sob o sol não possui a mesma capacidade de proteção de quem permanece em espaço climatizado. O risco cresce justamente onde a escolha é menor.

Ar-condicionado também virou privilégio

Mesmo dentro de casa, a solução tem custo. Comprar um aparelho de ar-condicionado ou ventilador não significa ter condições de mantê-lo ligado durante vários dias seguidos. As ondas de calor elevam o consumo de energia e pressionam o orçamento doméstico. Famílias com renda apertada acabam obrigadas a escolher entre suportar o ambiente abafado ou aumentar uma conta que talvez não consigam pagar. Também há moradores que dependem de instalações elétricas precárias ou enfrentam interrupções justamente nos períodos de maior consumo. Quando falta luz durante uma noite muito quente, desaparecem ventiladores, refrigeração de alimentos, carregamento de equipamentos e, em alguns casos, aparelhos necessários aos cuidados de saúde. A ameaça, portanto, não cabe apenas em um mapa climático. Ela entra na conta de luz, na qualidade da moradia, no tempo de espera pelo ônibus e na capacidade de comprar água ou permanecer em um lugar fresco.

A capital está no ranking, mas o risco atravessa o estado

O levantamento internacional utiliza grandes cidades e, por isso, destaca a capital. Isso não significa que o restante do Estado do Rio esteja protegido. A Região Metropolitana forma uma área urbana contínua, com grande concentração de concreto, tráfego, ocupação densa e bairros onde a arborização é limitada. Municípios da Baixada Fluminense e do Leste Metropolitano já apareceram em alertas estaduais com classificação severa ou extrema para excesso de calor. Nova Iguaçu, Belford Roxo, Queimados, Japeri, Mesquita, São Gonçalo, Itaboraí, Seropédica e outros municípios podem enfrentar condições perigosas durante ondas de calor, especialmente em áreas densamente construídas. No Médio Paraíba, cidades como Volta Redonda, Barra Mansa, Barra do Piraí e Resende combinam urbanização, atividade industrial e períodos de temperaturas elevadas. Na Região dos Lagos, o aumento sazonal da população e a exposição ao sol também pressionam serviços de saúde, água e energia. Mesmo a Região Serrana não está fora do problema. A altitude reduz as temperaturas médias em vários municípios, mas eventos extremos podem produzir tardes muito quentes, baixa umidade e grande variação térmica. Comunidades instaladas em áreas com pouca vegetação urbana ou moradias inadequadas continuam expostas. O território fluminense reúne litoral, baixadas, montanhas, vales e grandes manchas urbanas. Cada região sente o calor de forma diferente, mas nenhuma pode tratar as ondas extremas como um problema distante.

Rio ocupa o 83º lugar, mas ranking não prevê uma catástrofe

A posição do Rio deve ser interpretada com cuidado. O estudo não afirma que a cidade será a 83ª a sofrer um desastre nem estabelece uma data para isso acontecer. O ranking compara a vulnerabilidade relativa dos centros urbanos analisados. Ele combina exposição ao calor, capacidade de resposta, infraestrutura e características sociais da população. Uma cidade pode ter temperaturas menores que outra e ainda assim apresentar grande risco se parte dos moradores não tiver acesso a água, energia confiável, atendimento de saúde, áreas verdes e moradias adequadas. Por isso, o número não deve ser lido apenas como uma disputa entre cidades. Sua principal contribuição é mostrar que o calor extremo atinge territórios desiguais de maneira desigual. No topo mundial aparecem cidades de países como Iraque, Índia, Paquistão, Nigéria e Gana. Mais de 95% dos centros urbanos com maior exposição estão concentrados no sul e sudeste da Ásia e na África Subsaariana. Na América Latina e no Caribe, Barranquilla, na Colômbia, aparece como a mais vulnerável da região. Manaus ocupa o terceiro lugar regional.

Plantar árvores é importante, mas não resolve sozinho

Ampliar a arborização reduz a temperatura das superfícies, produz sombra e melhora o conforto de pedestres. No Rio, essa política precisa priorizar justamente as áreas onde há menos cobertura vegetal e maior circulação de pessoas. Não basta, porém, plantar mudas sem planejamento e manutenção. Árvores precisam de espaço adequado, irrigação, proteção e escolha compatível com cada rua. Também é necessário preservar exemplares adultos, que oferecem uma capacidade de sombra muito maior. A adaptação exige ainda pontos públicos de hidratação, escolas preparadas para dias extremos, unidades de saúde capazes de identificar rapidamente doenças relacionadas ao calor e regras específicas para trabalhadores expostos. Paradas de ônibus sem cobertura, calçadas sem sombra e estações lotadas ampliam o risco durante os deslocamentos. A política climática precisa entrar também no transporte público, na habitação, na assistência social e no planejamento urbano. Construções podem ser projetadas ou adaptadas para diminuir a entrada de calor, melhorar a circulação de ar e utilizar materiais que absorvam menos temperatura. Em comunidades e bairros densos, essas soluções precisam ser acessíveis a famílias que não conseguem reformar a própria casa.

A cidade já criou níveis de calor, mas a proteção precisa alcançar a rua

A Prefeitura do Rio passou a adotar níveis operacionais de calor, em uma escala usada para orientar medidas conforme a intensidade e a duração do evento. Em situações mais graves, podem ser adotadas ações como reforço da hidratação, mudanças em atividades externas e até restrições a eventos, dependendo das condições e das medidas preventivas disponíveis. O sistema melhora a comunicação do risco, mas o resultado depende de a informação chegar a quem precisa dela e de existir uma resposta prática. Saber que o calor atingiu um nível perigoso pouco ajuda o trabalhador que não pode interromper o serviço, a família sem água suficiente ou o idoso que passa o dia sozinho em uma casa abafada. Um protocolo eficiente precisa estar conectado às unidades de saúde, escolas, abrigos, equipes de assistência social, empresas, concessionárias e municípios vizinhos. A mancha de calor não respeita a divisa administrativa entre a capital e a Baixada. O estudo de Oxford coloca o Rio em uma lista mundial, mas a ameaça já é local e reconhecível. Ela está na criança que tenta dormir em um quarto sem ventilação, no idoso que reduz o consumo de água para não acabar o estoque, no trabalhador que atravessa o dia sob o sol e na família que teme a próxima conta de luz. A posição no ranking é apenas um número. A dimensão real será medida pela capacidade do poder público de impedir que o calor continue escolhendo suas vítimas pela renda e pelo lugar onde moram.

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