Intervenções na Baía de Guanabara, na Baixada Fluminense e na Região dos Lagos já reduzem a poluição e levam água tratada a áreas esquecidas por décadas
Deixar de conviver com cheiro de esgoto dentro de casa, não precisar passar a madrugada esperando a água voltar e abandonar a dependência de caminhão-pipa. Mudanças básicas, mas negadas durante décadas a milhares de famílias, começam a chegar a diferentes regiões do Estado do Rio por meio de novas obras de saneamento.Os investimentos atingem realidades distintas, mas provocam efeitos semelhantes: melhoria da saúde, redução da poluição, abastecimento mais regular e uma rotina mais digna dentro das casas.Na Baía de Guanabara, intervenções já impedem que 133 milhões de litros de esgoto por dia cheguem ao ecossistema. Em Belford Roxo, cerca de 30 mil moradores passaram a conviver com um fornecimento de água mais regular. Em Cabo Frio, uma nova rede deverá atender mais de 300 pessoas que ainda dependem frequentemente de caminhão-pipa.São obras que avançam debaixo do solo e nem sempre aparecem na paisagem durante a execução. Seus efeitos, porém, surgem na torneira, nas janelas das casas, nos rios, nas praias e na saúde das famílias.
Baía deixa de receber 133 milhões de litros de esgoto todos os dias
O maior impacto ambiental apresentado pelas concessionárias está concentrado na Baía de Guanabara, um dos principais cartões-postais do Rio e, ao mesmo tempo, símbolo de um passivo sanitário construído ao longo de décadas.Segundo a Águas do Rio, as intervenções realizadas desde o início da concessão já impedem que 133 milhões de litros de esgoto sejam lançados diariamente na baía. O volume corresponde a mais de 53 piscinas olímpicas por dia.A redução dos despejos interfere em muito mais do que a aparência da água. Menos esgoto significa menor contaminação dos rios, melhores condições para a recuperação da fauna marinha, diminuição do mau cheiro e redução dos riscos sanitários para quem vive próximo a canais, valões e afluentes.O biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano, acompanha a Baía de Guanabara desde a década de 1980 e afirma que as mudanças já podem ser percebidas debaixo d’água.— Mergulho na baía desde a década de 80 e são visíveis as melhorias na qualidade da água. Nunca imaginei que faria imagens do fundo do mar na Praia do Flamengo, nem que faria um mergulho com minha câmera na Praia de Botafogo — relatou.Para o biólogo, o saneamento precisa ser tratado como uma questão coletiva, porque a circulação das águas conecta bairros e municípios.— Não adianta pensar que “moro no Leblon, tenho saneamento e o resto do mundo não me importa”. Quando você entra no mar, está todo mundo conectado — afirmou.
Em São Gonçalo, melhora já permite até abrir as janelas
No Mutondo, em São Gonçalo, a recuperação ambiental começou a produzir uma mudança simples, mas muito significativa: moradores voltaram a abrir as janelas sem conviver permanentemente com o cheiro de esgoto.O aposentado Eduardo da Conceição, de 73 anos, mora próximo ao Rio Alcântara, um dos principais afluentes da Baía de Guanabara. Durante anos, ele conviveu com o odor forte vindo do curso d’água.Depois da implantação de uma nova rede coletora, a situação começou a mudar.— Agora consigo abrir as janelas da casa sem atacar minha alergia. Por esses dias, senti um cheiro diferente vindo do rio e era cheiro de anúncio de chuva, como minha esposa disse. Antes da obra, sentir esse cheiro era impensável — contou.O município também recebeu a primeira etapa de um sistema que já evita o lançamento diário de 3,5 milhões de litros de água contaminada na baía.A experiência do morador mostra como a recuperação dos rios chega diretamente ao interior das casas. Em regiões cortadas por canais poluídos, reduzir o esgoto também significa diminuir odores, insetos, contaminações e a exposição contínua a ambientes insalubres.
Maior obra de esgotamento em comunidades avança na Maré
Uma das principais frentes de saneamento está em andamento no Complexo da Maré, na cidade do Rio.Com investimento previsto de R$ 120 milhões, a intervenção é apresentada pela concessionária como a maior obra de esgotamento sanitário já realizada em comunidades cariocas.O projeto deverá beneficiar cerca de 200 mil moradores. Quando estiver concluído, em 2027, deverá impedir que aproximadamente 1,3 bilhão de litros de esgoto sejam despejados por mês no ecossistema da Baía de Guanabara.As intervenções também buscam reduzir um problema conhecido por muitas famílias da Maré: o retorno de esgoto para dentro das residências.A cuidadora de idosos Rosimere Gomes, de 65 anos, nasceu e cresceu na comunidade e acompanhou de perto as consequências da falta de saneamento.— Essa obra era muito necessária. Já trabalhei para pessoas que tiveram leptospirose. Inclusive, tive um vizinho que faleceu por conta dessa doença — relatou.Na prática, redes adequadas de esgoto significam menos contato com água contaminada, menos retorno para dentro dos imóveis e menor exposição a doenças que afetam principalmente áreas historicamente esquecidas pelos investimentos públicos e privados.
Rios da Baixada também deixam de receber água contaminada
As intervenções avançam por diferentes pontos da bacia hidrográfica da Baía de Guanabara.Em Mesquita, mais de 15 milhões de litros de água contaminada deixaram de ser lançados diariamente nos rios Dona Eugênia e Sarapuí.Na Ilha do Governador, obras em andamento deverão evitar que outros 4,9 milhões de litros de esgoto por dia cheguem à baía até o fim de 2027.Novas frentes também são executadas em Nilópolis e Nova Iguaçu, municípios atravessados por rios que desembocam no sistema da Guanabara.Na região central da capital, intervenções impediram que cerca de 22 milhões de litros de água contaminada por dia chegassem à enseada do Flamengo. A Praia do Flamengo voltou a apresentar melhores resultados de balneabilidade, e o monitoramento ambiental foi ampliado para incluir também a Praia da Glória.Em Paquetá, investimentos de R$ 26 milhões universalizaram a coleta e o tratamento de esgoto para aproximadamente 3,5 mil moradores. A estimativa apresentada é de que cerca de 725 milhões de litros deixem de ser despejados anualmente nas águas da região.
Trinta mil moradores deixam para trás décadas de espera por água
Enquanto parte das obras busca reduzir a poluição dos rios e da baía, outras enfrentam um problema igualmente antigo: a falta de água nas torneiras.No bairro São Francisco de Assis, em Belford Roxo, cerca de 30 mil moradores foram beneficiados por intervenções que reforçaram o sistema de abastecimento.Foram implantados aproximadamente 20 quilômetros de tubulações e substituídos outros 5,9 quilômetros de redes antigas.Antes das obras, a moradora Nizia Maria precisava permanecer acordada durante a madrugada para aproveitar os poucos momentos em que a água retornava.A rotina se repetiu por mais de três décadas.— Hoje conseguimos realizar tarefas simples, como lavar a louça e cuidar das plantas, sem aquela preocupação constante. Antes da chegada da Águas do Rio, enfrentamos problemas com a falta d’água por mais de 30 anos — contou.O marido, Gonzalo Francisco, lembra que a baixa pressão exigia atenção constante para aproveitar os raros momentos em que o abastecimento chegava com força suficiente.— Muitas vezes, só conseguíamos aproveitar o momento em que a pressão aumentava e as bombas dos vizinhos estavam desligadas. Agora a realidade é diferente — afirmou.O efeito das obras aparece em tarefas elementares: cozinhar, limpar a casa, tomar banho, lavar roupa e manter as caixas-d’água abastecidas.Em áreas com fornecimento irregular, a falta de água também representa gastos extras com bombas, reservatórios, caminhões-pipa e soluções improvisadas.
Atendimento comercial chega junto com as novas redes
As intervenções realizadas no bairro fazem parte do programa Vem com a Gente, desenvolvido pela Águas do Rio.Além das obras nas tubulações, equipes oferecem atendimento diretamente nas comunidades, com atualização cadastral, instalação de hidrômetros, inclusão de famílias na Tarifa Social e negociação de débitos.A proposta é regularizar tanto a infraestrutura quanto a relação dos moradores com o serviço.Segundo Jones Andrade, gerente comercial da concessionária, as ações chegam a áreas que conviveram por muitos anos com escassez hídrica e ligações irregulares.— Essas melhorias já refletem diretamente no cotidiano da população, com mais eficiência na distribuição e mais segurança para as famílias — afirmou.
Água tratada avança para moradores do Pontal do Peró
Na Região dos Lagos, a Prolagos executa uma nova rede de abastecimento no bairro Pontal do Peró, em Cabo Frio.O projeto prevê a instalação de aproximadamente 5,3 quilômetros de tubulações, com atendimento estimado a 125 imóveis e mais de 300 moradores.A conclusão está prevista para outubro de 2026.A obra deverá reduzir a dependência de caminhões-pipa, realidade enfrentada há anos por parte da comunidade.O morador Walter de Souza Almeida Filho acompanha os trabalhos e afirma que a chegada da rede é aguardada há muito tempo.— A gente enfrentava muitas dificuldades com a falta de água e dependia frequentemente de caminhão-pipa. Agora estamos muito felizes porque a água tratada está chegando para atender os moradores — declarou.Além da instalação das tubulações, o novo sistema está sendo dimensionado para acompanhar o crescimento da região e oferecer maior regularidade no abastecimento.De acordo com Maicon Urbanetto, do setor de Engenharia da Prolagos, o objetivo é entregar uma estrutura moderna e capaz de ampliar a segurança hídrica dos moradores.
Investimentos bilionários e metas que chegam até 2033
Desde novembro de 2021, a Águas do Rio informa ter investido R$ 6,3 bilhões nas 27 cidades onde atua.De acordo com a concessionária, cerca de 3,5 milhões de pessoas já foram beneficiadas por obras de modernização. Nesse período, aproximadamente 1,8 mil quilômetros de redes de abastecimento foram implantados ou substituídos.Até 2033, a previsão apresentada pela empresa é investir R$ 19 bilhões para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto nos municípios ligados à bacia da Baía de Guanabara.Os valores são altos, mas o efeito real precisa ser medido na vida das pessoas.Para uma família da Maré, a obra significa reduzir o risco de esgoto voltar para dentro de casa. Em São Gonçalo, representa poder abrir a janela sem o mau cheiro permanente. Em Belford Roxo, é não precisar mais vigiar a madrugada à espera de água. Em Cabo Frio, é deixar de depender de caminhão-pipa para garantir o abastecimento.Parte das obras ainda está em andamento e algumas metas somente deverão ser atingidas nos próximos anos. Nos locais onde as redes já começaram a operar, entretanto, os relatos mostram como o saneamento básico consegue transformar simultaneamente o ambiente, a saúde pública e a rotina dentro das casas.