Ônibus com sinais de depredação durante greve dos rodoviários no Rio de Janeiro.

Dos 4 mil ônibus, somente 700 estão nas ruas: veja a região que tem menos veículos

Parte do efetivo foi vandalizada ainda de madrugada e está fora de operação. Impactos atingem milhares de moradores

Em um dia normal, cerca de 3.700 ônibus circulam pelas ruas do Rio de Janeiro. Na manhã desta segunda-feira, 29 de junho, primeiro dia da greve dos rodoviários, o número informado pelas viações caiu para aproximadamente 600 veículos fora das garagens. A diferença ajuda a explicar a dimensão do problema enfrentado por passageiros desde as primeiras horas do dia. Mesmo com decisão da Justiça do Trabalho determinando circulação mínima durante a paralisação, relatos de usuários indicaram demora, pontos cheios e dificuldade maior em bairros da Zona Oeste, região que depende fortemente de ônibus e BRT para ligação com outras áreas da cidade. A greve começou à meia-noite, após decisão da categoria em assembleia realizada no domingo. A paralisação é por tempo indeterminado.

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A conta que pesa nos pontos

A informação de que 600 coletivos saíram das garagens foi divulgada pelo Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas que operam linhas municipais na cidade. O número representa uma fração da frota que costuma circular diariamente. Na prática, a discussão deixou de ser apenas sobre a existência de uma frota mínima determinada pela Justiça. Para o passageiro, o que importa é se o ônibus realmente passa no ponto, se para, se aceita embarque e se permite chegar ao destino. Relatos publicados nas redes sociais nesta manhã apontaram exatamente essa diferença entre a operação informada e a experiência nas ruas. Um passageiro afirmou que muitos veículos circulavam com o letreiro “Garagem”, sem embarcar usuários, enquanto ele esperava pela linha 422, no sentido Cosme Velho. Segundo o relato, a espera chegou a 50 minutos, com passagem de vários ônibus sem atendimento regular ao público.

Zona Oeste concentra queixas

A Zona Oeste apareceu entre as áreas com maior número de reclamações nas primeiras horas da greve. Passageiros relataram dificuldade em pontos e estações do BRT, especialmente em locais como Curicica, Taquara e Rio 2. Em uma das mensagens, uma usuária afirmou estar havia uma hora na estação Curicica sem passagem de BRT no sentido Rio 2 nem no sentido Taquara. Outro relato apontou ausência de veículos suficientes em estações desde a madrugada. A situação é especialmente sensível porque parte da Zona Oeste tem menos alternativas de transporte de massa em comparação com outras regiões da cidade. Em bairros atendidos por metrô, trens ou barcas, há opções paralelas para parte dos deslocamentos. Em áreas mais dependentes de ônibus e BRT, a redução da frota chega de forma mais direta ao trabalhador.

Mobi Rio informou operação regular

A Mobi Rio, empresa pública responsável pelo sistema BRT, informou que, segundo determinação do Tribunal Regional do Trabalho, os serviços deveriam operar normalmente nesta segunda-feira. Em comunicado, a empresa afirmou que seguiria com o plano operacional regular de dias úteis e citou o compromisso com mais de 630 mil passageiros transportados diariamente. A informação oficial, no entanto, contrastou com relatos de passageiros nas primeiras horas da manhã. Usuários reclamaram de demora e ausência de veículos em estações, especialmente na Zona Oeste.

COR orienta uso de outros modais

Às 5h25, o Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio informou que, em razão da determinação judicial que garantiu o funcionamento de parte da operação de ônibus e BRT, metrô, trens e barcas funcionavam regularmente nas áreas atendidas por esses modais. O COR-Rio reforçou que esses sistemas poderiam ser usados como alternativas pela população. A orientação, porém, não resolve igualmente a situação em toda a cidade. Para quem mora ou trabalha em regiões sem acesso direto a metrô, trem ou barca, a dependência dos ônibus continua sendo decisiva.

Viações relatam vandalismo em piquetes

Além da redução da frota, o Rio Ônibus afirmou que pelo menos 25 coletivos foram vandalizados em piquetes na madrugada desta segunda-feira. Segundo apuração divulgada pelo Bom Dia Rio, uma pessoa ficou ferida em uma das ações. Até a última atualização do material usado nesta reportagem, não havia confirmação se a vítima era passageiro ou motorista. As empresas divulgaram imagens de coletivos depredados e atribuíram os danos a atos ocorridos durante piquetes.

Justiça determinou frota mínima

O Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região deferiu liminar determinando a circulação mínima de 50% da frota nos horários de pico e de 25% nos intervalos. A decisão também fixou multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento, aplicada de forma independente ao sindicato dos trabalhadores e ao sindicato das empresas. A categoria reivindica mudanças salariais e trabalhistas, incluindo salário de R$ 4 mil para motoristas de ônibus convencionais, R$ 5 mil para motoristas de articulados, tíquete alimentação de R$ 1 mil, jornada 5×2, fim de contratos temporários no BRT, contratação pela CLT, manutenção do passe livre, plano de saúde e plano odontológico. O sindicato dos rodoviários afirma que a greve está mantida. As empresas dizem que as negociações seguem abertas.

O teste real está fora das garagens

A greve começou em um dia atípico no Rio. Além da paralisação dos rodoviários, repartições públicas têm ponto facultativo por causa do jogo do Brasil contra o Japão pela Copa do Mundo, marcado para 14h. Mesmo assim, muitos trabalhadores precisaram se deslocar pela manhã. E foi nesse trajeto que a diferença entre frota prevista, frota nas ruas e ônibus efetivamente disponíveis apareceu de forma mais clara. Para a Justiça, o ponto central é o cumprimento do percentual mínimo. Para empresas e sindicato, a discussão envolve negociação, operação e piquetes. Para o passageiro, a conta é mais simples: se o ônibus não passa, a cidade para.

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