Imagens antigas da construção da fábrica impressionam e resgatam saudosismo de uma época distante
Um pequeno galpão às margens do Rio Santo Antônio, 14 teares importados da Alemanha e um grupo reduzido de trabalhadores deram origem, em 1912, a uma das maiores referências da história industrial de Nova Friburgo. A Fábrica Ypu cresceu até formar um complexo de 44 mil metros quadrados e reunir aproximadamente 1.200 funcionários em seu período de maior expansão.
A trajetória da indústria também ultrapassou seus portões. Ao redor das instalações surgiu o bairro Ypu, enquanto o cotidiano de famílias inteiras passou a acompanhar os horários de entrada e saída determinados pelo apito da fábrica.
As informações fazem parte de pesquisa da historiadora Janaína Botelho, reproduzida pelo site da Associação de Guias de Turismo de Nova Friburgo (Ascigtur). O trabalho tem como fontes uma entrevista com Brigitte Madeleine Schultz, neta do industrial Emil Cleff, e o livro “Terra Friburguense”, do memorialista Décio Monteiro Soares.
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Os primeiros 14 teares chegaram da Alemanha
A produção começou no sítio Ypu, propriedade do empresário Maximilian Falck. Em parceria com William Peacock Denis, Falck instalou no local uma pequena fabricação de passamanarias, conjunto de itens decorativos utilizados principalmente em roupas, cortinas e acabamentos.
A empresa funcionava inicialmente com a razão social Maximilian Falck & Cia. Tanto a matéria-prima quanto os primeiros 14 teares vinham do exterior.
Um dos obstáculos era a falta de profissionais preparados para operar aquele maquinário em uma cidade cuja economia ainda estava concentrada principalmente na agricultura e, em menor escala, no turismo. Técnicos alemães foram contratados para treinar a mão de obra local.
Segundo a pesquisa de Janaína Botelho, cinco anos após o início das atividades a fábrica já contava com 155 operários. A Primeira Guerra Mundial dificultou a importação de produtos europeus e pode ter contribuído para que a empresa ampliasse sua participação no mercado brasileiro.
A fábrica passou a produzir sianinhas, guipires, bordados ingleses, bicos de renda e cordões. A expansão exigiu a abertura de setores de tecelagem, trançadeira, tinturaria e engomação.
A “fábrica de suspensórios” ganha o mercado nacional
A Ypu ficou conhecida durante anos como a “fábrica de suspensórios”, em razão da força que o acessório masculino alcançou dentro da produção. Em 1924, após atravessar dificuldades financeiras, a empresa recebeu novos sócios e profissionais responsáveis por reorganizar suas atividades.
Emil Cleff assumiu a produção, enquanto Antônio Edmundo Pockstaller ficou ligado à área comercial. Julius Arp, proprietário da Fábrica de Rendas Arp, também participou da sociedade durante um período.
Cleff vinha de uma família alemã ligada ao setor têxtil. Antes de se estabelecer em Nova Friburgo, havia criado uma fábrica de passamanarias na França, destruída durante a Primeira Guerra Mundial. Sua experiência foi usada para racionalizar a produção e melhorar a qualidade dos artigos fabricados pela Ypu.
Pockstaller, por sua vez, ampliou as vendas e levou a marca para diferentes partes do país. Em 1938, a empresa tornou-se uma sociedade anônima e adotou a razão social Fábrica Ypu S.A.
O crescimento ocorreu quando o parque industrial brasileiro ainda era limitado. Em Nova Friburgo, a chegada de grandes fábricas mudava gradualmente uma economia historicamente vinculada ao campo.
Um bairro organizado em torno da fábrica
O bairro Ypu cresceu acompanhando a expansão do complexo industrial. Na década de 1940, foram construídas casas para trabalhadores, formando uma vila operária nos arredores da fábrica.
Naquele período, Nova Friburgo ainda não possuía transporte coletivo regular entre todos os bairros. Muitos funcionários chegavam ao trabalho a pé ou de bicicleta.
A ligação entre a empresa e os operários continuava depois do expediente. A Recreativa Ypu, inaugurada em 1944, recebia práticas esportivas, festas, bailes, apresentações teatrais e sessões de cinema.
A indústria também mantinha equipes esportivas. Os times formados por trabalhadores de diferentes fábricas participavam dos Jogos dos Industriários, que estiveram entre os eventos tradicionais da cidade.
Funcionários da Ypu ainda contavam com assistência médica e dentária. Na década de 1970, o complexo ganhou um restaurante com capacidade para servir mais de mil refeições por dia. Naquele período, a fábrica possuía cerca de 1.200 trabalhadores.
Produção passou dos suspensórios aos cintos e às carteiras
A queda do uso de suspensórios obrigou a empresa a buscar novos produtos. A Ypu passou a fabricar cintos masculinos de couro e criou uma linha chamada “Friburgo”. Posteriormente, começou a produzir carteiras.
Para ampliar essa atividade, a indústria instalou um curtume e passou a trabalhar o couro utilizado em sua própria produção.
Em 1958, a empresa possuía 1.026 operários. Cerca de 90% da matéria-prima utilizada naquele momento já era nacional, uma realidade bastante diferente dos primeiros anos, quando máquinas e materiais precisavam vir do exterior.
Nas décadas seguintes, a Ypu importou novos equipamentos de bordado da Alemanha e ampliou sua estrutura. O complexo possuía cartonagem para produzir embalagens, oficina mecânica e carpintaria. Algumas máquinas que anteriormente eram importadas chegaram a ser fabricadas dentro da própria empresa.
Seu parque industrial alcançou 44 mil metros quadrados de área construída. As dimensões dos prédios faziam da fábrica uma das primeiras construções percebidas por quem chegava a Nova Friburgo.
Da expansão à falência
Maximilian Falck morreu em 1944. A administração passou por diferentes integrantes das famílias ligadas à empresa, entre eles Emil Cleff, Max Cleff e Oscar Schultz.
Emil Cleff morreu em 1968, aos 99 anos. A avenida localizada diante da fábrica recebeu seu nome, e um busto foi instalado no pátio interno em sua homenagem.
A pesquisa histórica relata que disputas administrativas antecederam uma crise financeira. Harold Anton Pockstaller, neto de Maximilian Falck, afastou antigos executivos e assumiu maior espaço na condução da empresa.
Posteriormente, William Khoury, do grupo Sayonara, assumiu o controle acionário e investiu na renovação do maquinário. A indústria, porém, acumulava dívidas e enfrentava dificuldades para atender às obrigações trabalhistas, fiscais e ambientais descritas no levantamento.
A fiscalização sobre o despejo de produtos químicos nos rios também havia se tornado mais rigorosa. A antiga Companhia Estadual de Controle Ambiental exigiu modificações na tinturaria e a construção de uma estação de tratamento. Sem recursos para atender às exigências e superar o passivo acumulado, a falência acabou decretada.
“Ali era o meu segundo lar”
A dimensão afetiva da Fábrica Ypu aparece no relato do antigo operário Zei Marques da Silva, publicado pelo jornal A Voz da Serra em março de 2006.
Admitido em 1950 como aprendiz de mecânico, ele permaneceu na empresa durante 44 anos. Pai, irmãos, sobrinhos, primos, vizinhos e amigos também estavam ligados à fábrica.
“Ali eu vivia a maior parte do dia”, escreveu o antigo funcionário ao recordar o trabalho, os esportes, as festas juninas, os bailes, as sessões de cinema e os encontros realizados na Recreativa Ypu.
Para trabalhadores como Zei, a fábrica ajudou na formação de famílias e na conquista da casa própria. A convivência diária transformou colegas em uma comunidade que permanecia reunida mesmo depois do expediente.
O fechamento encerrou a atividade de uma gigante industrial, mas não apagou sua presença na cidade. A fábrica permanece no nome e na paisagem do bairro Ypu, nas ruas dedicadas a seus antigos dirigentes, nas fotografias preservadas e na memória das famílias que tiveram parte de suas vidas ligada à empresa.
Fontes: pesquisa da historiadora Janaína Botelho, publicada no site da Ascigtur Nova Friburgo; entrevista com Brigitte Madeleine Schultz; e livro “Terra Friburguense”, do memorialista Décio Monteiro Soares.
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