Perícia no local de crime: policiais investigam com régua de pedreiro

Medo desbloqueado: PM confunde ferramenta com arma e mata pedreiros no RJ

Trabalhadores saíram cedo para mais um dia de obra. Minutos depois, tiros espalharam medo, revolta, morte e silêncio 

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Tem gente no Rio de Janeiro mudando até a forma de carregar objetos na rua. Ferramenta, guarda-chuva, furadeira, mochila nas costas, qualquer movimento mais brusco passou a gerar um pensamento automático em muitas comunidades: “e se a polícia confundir?” A morte de dois pedreiros em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, transformou esse medo em conversa diária entre moradores. Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, e Edivan Felipe de Assis, de 46, saíam para trabalhar quando foram baleados por policiais militares na região da Ipuca, no Jardim Catarina. Segundo testemunhas, os dois estavam em uma moto levando ferramentas e marmitas para iniciar uma obra. O que deveria ser apenas mais uma manhã comum terminou com rajadas de tiros, protesto na BR-101 e uma comunidade inteira tentando entender como trabalhadores foram confundidos com criminosos. O relato de um morador ouvido pela polícia aumenta ainda mais o peso do episódio. “Eles passaram por mim, me cumprimentaram, deram bom dia. Só que ele estava com uma ferramenta no colo. Eu até pensei comigo: ‘pô, pode ser confundido com alguma arma’. Uns trinta segundos depois eu ouvi a rajada”, contou. A mesma testemunha afirma que não houve abordagem antes dos disparos. “Não teve pedido para parar. Não teve voz de prisão. Eles simplesmente chegaram atirando.” As falas ecoaram rapidamente pela comunidade. Não apenas pela violência da cena, mas porque moradores afirmam que situações parecidas têm se tornado mais frequentes em diferentes pontos do estado: operações em que a suspeita vem antes da identificação. A perícia encontrou próximo ao local uma ferramenta descrita como régua de pedreiro. Ferramentas de obra também estavam ao lado dos corpos. Marcelo deixou esposa e uma filha. Edivan deixou um neto de apenas três meses. Um dos homens também era dono de um bar na região e, segundo relatos, havia saído naquela manhã para ajudar o amigo como ajudante de pedreiro, tentando complementar a renda. Entre moradores do Jardim Catarina, o clima durante o dia foi de indignação, medo e tensão. Muitos comerciantes preferiram fechar parcialmente as portas. Em algumas ruas, o assunto parecia travar qualquer conversa cotidiana. A sensação compartilhada era simples e pesada ao mesmo tempo: se até trabalhadores indo para a obra podem morrer confundidos, qualquer pessoa passa a se sentir vulnerável.

Revolta fechou BR-101 e afetou escolas e unidade de saúde

A reação veio poucas horas depois. Moradores fecharam a BR-101 na altura do km 306, sentido Rio, ateando fogo em pneus e interrompendo o trânsito. O congestionamento chegou a aproximadamente um quilômetro. A tensão obrigou mudanças na rotina da região. A Unidade de Saúde Familiar Agenor José da Silva teve funcionamento suspenso. Escolas também interromperam as atividades pela manhã, entre elas a Unidade Municipal de Educação Infantil Augusto de Freitas Lessa e o CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi. Para quem mora em São Gonçalo, o episódio rapidamente ultrapassou a esfera policial e entrou na rotina prática da cidade: trânsito interrompido, aulas suspensas, medo nas ruas e famílias destruídas.

Cresce pressão sobre operações policiais no Rio

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí investiga o caso. Até o momento, ainda não há esclarecimento público sobre as circunstâncias exatas da ação policial, nem confirmação se os agentes utilizavam câmeras corporais durante a operação. Em nota, a Polícia Militar afirmou lamentar as mortes de Marcelo da Cruz Silva e Edivan Felipe de Assis e declarou colaborar integralmente com as investigações. Enquanto isso, a discussão volta para dentro das casas, dos ônibus, dos grupos de mensagens e das esquinas das comunidades do Rio: o medo de ser confundido. Porque, para muita gente, o caso em São Gonçalo deixou de ser apenas uma notícia policial. Virou uma sensação permanente de insegurança até para quem está simplesmente indo trabalhar.

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