Bloqueio atmosférico, cavado meteorológico e El Niño vão potencializar fenômenos climáticos extremos já nesta semana
O alerta para uma sequência de tempestades no Sul do Brasil desperta uma preocupação inevitável no Estado do Rio: essa mesma combinação capaz de provocar temporais intensos, granizo e rajadas violentas conseguirá avançar até o Sudeste?A resposta, neste momento, é que não há previsão de repetição, no Rio de Janeiro, do mesmo cenário severo projetado para os estados sulistas.O bloqueio atmosférico que ajuda a represar os sistemas sobre o Sul também tende a dificultar a chegada da frente fria ao território fluminense. Isso não significa, porém, que o Estado do Rio esteja completamente fora da influência dessa mudança.Se parte do sistema conseguir avançar pelo oceano e ultrapassar a barreira de ar seco, os principais reflexos poderão ser rajadas de vento, aumento da agitação marítima, queda de temperatura e episódios de chuva forte.A situação ainda depende da posição e da intensidade que os sistemas atmosféricos apresentarão nos próximos dias.
Por que o Sul poderá enfrentar tempestades tão fortes?
A previsão de instabilidade a partir de quinta-feira, 16 de julho, está relacionada ao encontro de diferentes condições favoráveis à formação de tempestades.Uma massa de ar frio deverá avançar sobre uma região onde ainda haverá ar mais quente e úmido. Esse contraste aumenta a instabilidade e favorece a formação rápida de nuvens de grande desenvolvimento vertical.Ao mesmo tempo, cavados meteorológicos — áreas alongadas de baixa pressão — e uma frente fria poderão manter a chuva por vários dias. O risco não está somente no volume acumulado, mas na possibilidade de tempestades localizadas capazes de produzir vento intenso, granizo e chuva concentrada em pouco tempo.Projeções meteorológicas citadas no material de apuração apontam acumulados que podem superar 300 milímetros em áreas do Rio Grande do Sul e alcançar aproximadamente 150 milímetros em Santa Catarina durante a sequência de instabilidade.Esses valores, no entanto, ainda podem mudar conforme a atualização dos modelos. Até o momento, as fontes oficiais consultadas não apresentaram confirmação de que esses totais ocorrerão de maneira generalizada, nem emitiram uma previsão oficial específica de tornados para todo o período.Tornados e microexplosões atmosféricas são fenômenos localizados e difíceis de prever com vários dias de antecedência. Os modelos podem indicar um ambiente favorável, mas a identificação mais precisa costuma acontecer perto da formação das tempestades.O Instituto Nacional de Meteorologia já apontava chuva acima da média em partes do Sul ao longo de julho, enquanto a tendência para grande parte do Sudeste era de precipitação abaixo da média histórica.
O papel do El Niño nessa configuração
O El Niño já está presente e deve ganhar força nos próximos meses, segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA.O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento de uma faixa do Oceano Pacífico Equatorial e costuma alterar os corredores de umidade, a circulação dos ventos e a frequência das frentes frias sobre a América do Sul.No Sul do Brasil, o El Niño geralmente favorece períodos mais chuvosos. O próprio Inmet já havia indicado maior probabilidade de chuva acima da média no Rio Grande do Sul entre maio e julho.Isso não significa que o El Niño seja responsável sozinho por uma tempestade específica. O resultado depende da combinação com frentes frias, áreas de baixa pressão, umidade disponível e diferenças de temperatura entre as massas de ar.
O bloqueio que protege também pode mudar
Sobre o Centro-Oeste e parte do Sudeste, uma massa de ar seco tende a formar uma espécie de barreira. Esse bloqueio dificulta o avanço das frentes frias e ajuda a manter os sistemas concentrados mais ao sul.É justamente essa configuração que, inicialmente, reduz a possibilidade de o Estado do Rio enfrentar uma sequência semelhante à prevista para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.O bloqueio, entretanto, não funciona como uma parede permanente. Ele pode enfraquecer, mudar de posição ou permitir que uma parte da frente avance pelo litoral.Caso isso aconteça, os efeitos mais prováveis no Rio serão observados primeiro no mar e nos ventos. A circulação associada ao sistema pode elevar as ondas e produzir rajadas no litoral, mesmo quando a frente fria não consegue avançar plenamente sobre o continente.A Marinha já mantinha avisos recentes de vento forte e mar agitado em áreas oceânicas próximas ao Sul e ao Sudeste, demonstrando como sistemas distantes podem alterar as condições marítimas antes de produzir chuva em terra.
Há risco de alagamentos no Rio?
Ainda é cedo para definir quais cidades fluminenses poderão receber chuva e qual será o volume.Se a frente fria permanecer bloqueada, o Rio poderá registrar apenas aumento de nebulosidade, vento e mudanças no mar. Se o sistema avançar mais do que o previsto, pancadas fortes poderão atingir principalmente o litoral e áreas próximas da divisa com São Paulo.Nesse segundo cenário, pontos urbanos com drenagem deficiente poderão enfrentar alagamentos rápidos. Encostas também exigirão atenção se a chuva ocorrer com intensidade elevada ou persistir por várias horas.Por enquanto, não existe indicação de que o Estado do Rio receberá os mesmos acumulados ou enfrentará a mesma sequência de tempestades prevista para o Sul.A distância para o início do evento ainda permite mudanças importantes nos modelos. Por isso, previsões de tornados, microexplosões, volumes extremos e áreas atingidas precisam ser tratadas como possibilidade, e não como fato confirmado.O cenário deverá ficar mais claro à medida que a quinta-feira se aproximar e os órgãos oficiais atualizarem seus mapas de risco.