Movimento de veículos na Rua General Osório, em Nova Friburgo, onde existe preocupação com a possível implantação definitiva da mão dupla.

Mudança na Rua General Osório ameaça travar Nova Friburgo

Trecho reúne hospitais, clínicas, colégios, comércio, carga e descarga e paradas rápidas durante todo o dia 

Nova Friburgo pensa em colocar dois fluxos onde mal cabe um
A Rua General Osório já recebe ambulâncias, carros de pacientes, transporte escolar, entregas, ônibus, veículos particulares e motoristas que precisam parar por poucos minutos. Tudo isso acontece em uma via que, nos horários mais movimentados, trabalha perto do próprio limite. Mesmo assim, voltou a circular entre moradores e comerciantes a possibilidade de a Prefeitura de Nova Friburgo transformar definitivamente parte da rua em mão dupla. A ideia preocupa por uma razão simples: não se criaria uma nova pista. A mesma largura hoje usada por um sentido teria de acomodar dois fluxos opostos, além das necessidades que já ocupam as laterais da via. Na prática, a proposta corre o risco de trocar um problema de circulação por um congestionamento permanente. O trecho citado fica entre a Casa dos Pobres São Vicente de Paulo e a Rua Aristão Pinto. No final de junho, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Urbanismo, a Semu, permitiu temporariamente a circulação nos dois sentidos após o incêndio de uma carreta na Avenida Rui Barbosa. Naquela ocasião, a mudança serviu como resposta emergencial a uma interdição fora do comum. O receio agora é que uma solução improvisada para uma crise seja reaproveitada como modelo definitivo.

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Uma rua ocupada por necessidades que não desaparecem

A General Osório não funciona como uma avenida larga, livre e exclusivamente dedicada à passagem de veículos. Ao longo dela existem colégios, hospitais, clínicas, lojas, imóveis residenciais e estabelecimentos que dependem de carga e descarga. Pais precisam parar para deixar ou buscar alunos. Pacientes desembarcam diante de consultórios. Ambulâncias precisam de passagem. Fornecedores realizam entregas. Essas paradas podem ser breves, mas fazem parte do funcionamento normal da rua. Com a mão única, o trânsito já precisa absorver essas interferências. Com veículos seguindo em sentidos contrários, qualquer carro parado poderia reduzir o espaço útil e obrigar os demais a esperar. Um caminhão de entrega, uma van escolar ou um veículo deixando um paciente teriam condições de formar retenções nos dois lados ao mesmo tempo. O risco maior não é apenas o engarrafamento. É o bloqueio de uma via usada para chegar a unidades de saúde.

Ambulâncias podem encontrar uma parede de carros

Há dois hospitais e diferentes clínicas na região. Isso torna a General Osório diferente de uma rua exclusivamente comercial ou residencial. Em um congestionamento comum, o motorista perde tempo. Quando uma ambulância fica presa, o atraso pode atingir uma pessoa que precisa de atendimento médico. A adoção da mão dupla precisaria considerar onde os veículos conseguiriam abrir passagem, como funcionariam as conversões, quais pontos de parada seriam mantidos e de que maneira ambulâncias atravessariam o trecho nos horários de pico. O material apresentado até agora não informa a existência de um estudo técnico divulgado publicamente com simulações de tráfego, contagem de veículos, análise dos horários escolares ou avaliação específica sobre o acesso aos hospitais. Sem esses dados, a proposta corre o risco de ser tratada apenas como uma mudança de placa e pintura. Mas trânsito não se reorganiza apenas invertendo setas.

O teste emergencial não prova que a mudança funciona

A mão dupla temporária adotada após o incêndio da carreta ocorreu em uma situação excepcional. Parte da circulação da cidade estava sendo redirecionada porque outra via enfrentava uma emergência. Isso não equivale a um teste completo para uma implantação permanente. Para avaliar o resultado real, seria necessário observar a rua em dias comuns, nos horários de entrada e saída das escolas, durante o funcionamento das clínicas, nos períodos de entrega do comércio e nos momentos de maior movimento dos hospitais. Também seria preciso medir o tempo de percurso, os pontos de retenção, as conversões mais difíceis e a capacidade de passagem de veículos maiores. Usar uma alteração emergencial como justificativa para uma mudança definitiva, sem apresentar esse conjunto de informações, seria transformar improviso em planejamento.

Dois sentidos não significam o dobro da mobilidade

A lógica pode parecer simples: ao permitir carros nos dois sentidos, a cidade ganharia mais opções de circulação. Só que uma rua estreita não aumenta de tamanho quando passa a receber o fluxo contrário. Dependendo da largura útil, das paradas e dos cruzamentos, a mão dupla pode reduzir a capacidade da via. Um veículo que precisa aguardar para entrar, estacionar, desembarcar alguém ou realizar uma conversão interfere no fluxo que vem atrás e também naquele que chega de frente. Em vez de distribuir o trânsito, a mudança pode concentrar retenções exatamente em uma região sensível do Centro. É o tipo de medida que precisa nascer de dados reais, e não da impressão de que abrir mais um sentido resolverá a circulação.

Moradores e comerciantes não querem decisão de gabinete

A possibilidade provocou reação de pessoas que vivem ou trabalham na General Osório. A principal cobrança é para que qualquer mudança definitiva seja discutida antes com quem conhece o funcionamento diário da rua. A contradição: para nomear o Posto de Urgência de Lumiar com o nome de Isadora Stulpen Veiga, foi exigida discussão popular e diversas burocracias, mas para alterar o trânsito central da cidade, o prefeito quer fazer sem acionar a população. Até o momento, o material enviado ao EcoSerrano não informa a realização de audiência pública, consulta aos moradores, reunião aberta com comerciantes ou apresentação pública do estudo viário. Caso a Prefeitura decida alterar a circulação sem esse diálogo, a mudança chegará pronta para uma população que terá de conviver com os resultados. Ouvir os afetados não substitui a análise técnica. Mas uma análise que ignora hospitais, escolas, clínicas, entregas e embarques também não consegue reproduzir tudo o que acontece no local.

A pergunta que a Semu precisa responder

Antes de transformar a General Osório em mão dupla, a Secretaria de Mobilidade precisa explicar qual problema pretende resolver. Também deverá mostrar se a rua comporta dois veículos maiores em sentidos opostos, como ficarão as paradas, de que maneira as ambulâncias terão passagem e qual será o efeito nos cruzamentos próximos. Sem essas respostas, a proposta parece partir de uma conta incompleta: colocar mais uma direção na mesma rua e esperar que o trânsito encontre espaço sozinho. O EcoSerrano mantém o espaço aberto para que a Prefeitura e a Semu esclareçam se existe um estudo em andamento, apresentem os dados técnicos e informem se moradores, hospitais, escolas, clínicas e comerciantes serão consultados antes de qualquer decisão.

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