Fotografias preservam o coreto, as alamedas, os jardins e a vida tranquila que cercava a antiga Praça 15 de Novembro
Houve um tempo em que Nova Friburgo parecia caminhar em outro ritmo. Os automóveis dividiam as ruas com poucos pedestres, as calçadas funcionavam como lugares de encontro e as árvores do Centro formavam longos corredores de sombra. No coração desse cenário estava a Praça 15 de Novembro, atual Praça Getúlio Vargas, acompanhando silenciosamente a transformação da cidade.
Fotografias antigas conservadas no acervo de Vanice Eva Rosa abrem uma janela para essa Nova Friburgo bucólica. São registros de uma cidade com ruas tranquilas, construções baixas e uma paisagem urbana ainda cercada pela imponência das montanhas.
A praça, maior e mais importante espaço público do município, surge nas imagens como muito mais do que um caminho entre duas partes do Centro. Era jardim, ponto de contemplação, lugar de convivência e cenário da vida cotidiana dos friburguenses.
Localizada no coração de Nova Friburgo — município tradicionalmente associado à posição central no território fluminense —, a Praça Getúlio Vargas atravessou diferentes períodos e nomes. Antes de receber a denominação atual, era conhecida como Praça 15 de Novembro, nome que ainda aparece impresso nas fotografias e permanece vivo na memória de muitos moradores.
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Um jardim no meio da cidade
Em uma das imagens, a antiga Praça 15 aparece tomada por árvores altas, canteiros e caminhos de terra. Ao fundo, um delicado coreto se destaca entre os troncos, quase escondido pela vegetação.
Homens, mulheres e crianças caminham sem pressa. A grade que acompanha uma das alamedas organiza o espaço, enquanto a sombra das árvores cobre boa parte do percurso. Não há multidão, publicidade ou trânsito intenso. A praça parece respirar junto com a cidade.
O registro transmite a sensação de uma Nova Friburgo silenciosa, na qual atravessar o Centro também podia significar parar, conversar, observar o movimento ou simplesmente descansar sob as árvores.
O coreto ocupava uma posição de destaque. Construções desse tipo serviam tradicionalmente como palco para bandas e apresentações públicas, ajudando a transformar as praças em espaços de encontro. Na fotografia, ele aparece como uma pequena joia arquitetônica no meio do jardim.

O lago que desapareceu da paisagem
Outra fotografia guarda uma imagem capaz de causar surpresa até mesmo entre moradores: a Praça 15 de Novembro possuía um lago.
O espelho d’água ocupava parte significativa do jardim. Seus contornos acompanhavam os canteiros e refletiam as árvores, os postes e a claridade que atravessava a vegetação. Ao fundo, o coreto completava a composição.
Nas laterais, bancos se escondiam sob a sombra. Pequenos arbustos cuidadosamente aparados se distribuíam pelos jardins, enquanto os casarões do entorno ajudavam a compor uma paisagem elegante e serena.
O lago não existe mais, mas a fotografia impede que sua presença desapareça completamente. Ela registra uma praça desenhada para ser admirada e vivida, em uma época na qual o espaço público também oferecia contemplação no centro da rotina urbana.
É difícil observar a imagem sem imaginar o reflexo das árvores se movimentando na água, o som dos passos pelas alamedas e os encontros que aconteceram diante daquele cenário.

Árvores, montanhas e ruas quase vazias
Vista de cima, a área ao redor da praça revela outra dimensão daquela Nova Friburgo. Uma extensa fileira de árvores acompanha a avenida, formando um paredão verde ao lado da rua.
Os postes, os poucos carros e os telhados das construções mostram uma cidade que ainda crescia sem esconder completamente a paisagem natural. Ao fundo, a montanha domina o horizonte, lembrando que a vida urbana friburguense sempre esteve cercada pela geografia da Serra.
Uma inscrição comercial pintada na lateral de um prédio e os veículos de época ajudam a situar o observador em um passado distante. As ruas parecem largas diante do pequeno movimento. Pessoas atravessam calmamente, enquanto os automóveis surgem espaçados pela via.
A fotografia permite perceber como as árvores da praça já organizavam visualmente o Centro. Elas não eram apenas parte da ornamentação: formavam uma extensa cobertura vegetal que se tornou uma das características mais reconhecíveis da paisagem friburguense.
O Fórum e a elegância de 1968
O registro datado de 29 de março de 1968 mostra os arredores da praça diante do antigo Fórum de Nova Friburgo. É uma cena cotidiana, mas carregada de pequenos detalhes.
Fuscas, caminhonetes e outros veículos da época ocupam a rua. Duas mulheres conversam sentadas em um banco. Perto delas, dois homens de terno azul e chapéu observam o movimento. Pessoas caminham diante do edifício, enquanto outras esperam ou conversam junto à calçada.
Não há pose coletiva nem solenidade. O que a fotografia guarda é a vida acontecendo.
O antigo Fórum se impõe na paisagem com sua torre, seus arcos e a arquitetura de inspiração europeia. Em frente ao prédio, os automóveis coloridos dão movimento a uma cidade que já se modernizava, embora ainda mantivesse o ar de uma pequena localidade serrana.
A fotografia envelhecida, com rachaduras, manchas e cores suaves, também conta sua própria história. As marcas do papel mostram que o tempo não passou apenas sobre a cidade. Passou igualmente sobre o objeto que preservou aquele instante.
A praça como testemunha de Nova Friburgo
A atual Praça Getúlio Vargas viu o lago desaparecer, o trânsito aumentar, os prédios se multiplicarem e diferentes gerações ocuparem suas alamedas. Mudaram os veículos, as roupas, o comércio e a forma como as pessoas circulam pelo Centro.
Ainda assim, parte daquela paisagem permanece reconhecível.
As árvores continuam formando um dos principais símbolos da praça. As montanhas permanecem em torno da cidade. Edificações históricas ainda ajudam a ligar o presente a uma Nova Friburgo que sobrevive nas lembranças, nos arquivos familiares e nas fotografias guardadas durante décadas.
Reunidos, os quatro registros não mostram apenas lugares antigos. Eles revelam uma maneira de viver a cidade: sentar-se em um banco para conversar, caminhar sob as árvores, encontrar conhecidos no jardim e acompanhar o movimento sem a pressa dos dias atuais.
A antiga Praça 15 de Novembro era palco e espectadora. Por suas alamedas passaram moradores anônimos, famílias, trabalhadores e crianças. Muitas dessas pessoas não tiveram os nomes registrados, mas continuam fazendo parte da história friburguense porque estavam ali quando a câmera congelou o momento.
As fotografias devolvem por alguns instantes o lago, o coreto, os carros antigos e as ruas tranquilas. E lembram que, antes de ser formada por prédios e caminhos, uma cidade é feita das pessoas que a atravessam — e das memórias que elas decidem preservar.
Fotos: Acervo Vanice Eva Rosa
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