Trabalhadores que chegam atrasados ou faltam ao trabalho podem enfrentar fúria de patrões; Veja até quando vai durar a greve
A greve dos rodoviários do município do Rio de Janeiro entrou no terceiro dia nesta quarta-feira com um efeito que vai muito além das filas nos terminais: para milhares de trabalhadores, a dificuldade para chegar ao serviço já começa a virar risco de atraso, falta e até punição no emprego.Com menos ônibus nas ruas, quem depende do transporte municipal tem enfrentado espera prolongada, embarques disputados e deslocamentos improvisados. Em alguns pontos da cidade, a rotina virou uma tentativa de chegar ao trabalho — ou voltar para casa — sem saber se o próximo ônibus vai passar, se haverá lugar para entrar ou se o atraso será aceito pelo patrão.A paralisação foi mantida após os rodoviários rejeitarem, em assembleia na terça-feira, a proposta apresentada pelas empresas. Uma nova audiência de conciliação foi marcada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região para esta quarta-feira, às 11h.
O impacto mais imediato aparece nos terminais e pontos de maior movimento. No Terminal Gentileza, na região central, passageiros enfrentaram filas longas e espera que chegou perto de uma hora em alguns momentos. Em Deodoro, na Zona Oeste, trabalhadores também relataram dificuldade para embarcar nas primeiras horas da manhã.O caso do vigia Carlos Augusto da Costa, de 64 anos, resume a situação vivida por muitos passageiros. Depois de esperar cerca de 35 minutos pela linha 754, que liga Deodoro a Santa Cruz via Palmares, ele acabou decidindo embarcar em outro coletivo para tentar seguir viagem.Para quem trabalha com horário rígido, depende de escala, bate ponto ou precisa atravessar a cidade, esse tipo de escolha não é simples. Um ônibus perdido pode significar atraso. Dois ônibus que não chegam podem virar falta. E, quando a greve se prolonga, o problema deixa de ser apenas a demora do dia: passa a atingir diretamente a renda e a permanência no emprego.
Menos da metade da frota em horários de pico
Dados disponibilizados pela Prefeitura do Rio por meio do aplicativo GPS dos Ônibus mostram a dimensão da redução no serviço.Às 8h de terça-feira, havia 1.460 ônibus nas ruas. O número representava 39,3% da frota disponível no mesmo horário da terça-feira anterior, quando 3.712 veículos estavam em circulação.O maior número registrado ao longo do dia foi às 14h, com 1.695 ônibus monitorados. Mesmo assim, o total equivalia a 48,1% dos 3.521 veículos em operação no mesmo período da semana anterior.Na manhã desta quarta-feira, o Rio Ônibus informou que, por volta das 6h20, 1.500 coletivos estavam circulando pela cidade.A Justiça do Trabalho determinou a manutenção de pelo menos 80% da frota em operação, mas as empresas afirmam que o cumprimento da decisão tem sido dificultado pela falta de encaminhamento das escalas de motoristas pelo sindicato dos rodoviários.Em nota, o Rio Ônibus pediu que motoristas e rodoviários compareçam às garagens para iniciar o trabalho e afirmou que a população não pode “ficar mais um dia a pé”.
Impasse salarial mantém greve nas ruas
A greve continua porque trabalhadores e empresas seguem sem acordo sobre o reajuste da categoria.Os rodoviários reivindicam aumento de 17% para funções gerais, com pagamento dividido em duas parcelas: 8% em julho e 8,3% em novembro. A categoria também pede piso salarial de R$ 5 mil para motoristas de BRT e R$ 4 mil para os demais motoristas.Entre as demais reivindicações estão ticket alimentação de R$ 1 mil, plano de saúde, jornada 5×2 e pagamento do intervalo de refeição como hora extra.Do outro lado, o Rio Ônibus afirma que não há condições financeiras para atender aos valores pedidos pelos trabalhadores. O sindicato patronal manteve a contraproposta de reajuste de 4,39% e argumenta que o setor enfrenta crise estrutural de receita, além de redução dos subsídios por quilômetro rodado no município.Na audiência de terça-feira, o TRT-RJ e o Ministério Público do Trabalho propuseram que os rodoviários suspendessem a greve até uma nova rodada de negociação. Em troca, não haveria desconto pelos dias parados, e a Prefeitura se comprometeria a não multar as empresas pela falta do serviço.A proposta foi levada à assembleia, mas acabou rejeitada.
Confusão, ônibus depredados e chaves retiradas
A assembleia que decidiu pela continuidade da greve teve momentos de tensão. Houve bate-boca, ovos foram arremessados contra carros do sindicato e coletivos em circulação foram abordados por grevistas.Segundo o Rio Ônibus, 15 veículos foram vandalizados, e rodoviários que estavam trabalhando teriam sido hostilizados.Pouco antes das 15h de terça-feira, cerca de cem rodoviários caminharam pela pista lateral da Avenida Presidente Vargas em direção ao Terminal Gentileza. Durante o trajeto, manifestantes retiraram chaves de alguns ônibus, que precisaram ser rebocados. Guardas municipais impediram a tentativa de entrada no terminal.O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirmou que a categoria segue mobilizada e que a greve continuará caso não seja apresentada uma proposta considerada adequada pelos trabalhadores.
Trens e metrô tentam absorver parte da demanda
Com a manutenção da greve, outros modais anunciaram reforços para tentar reduzir o impacto sobre os passageiros.A Trens RJ informou que disponibilizaria 30 viagens além da grade convencional, com redução de intervalos nos horários de maior demanda. O MetrôRio afirmou que poderia reforçar a oferta de composições caso houvesse aumento no número de passageiros.A Mobi-Rio informou que o sistema BRT registrou aumento de 26% da frota em operação na comparação com o primeiro dia da greve. Segundo a companhia, dos 541 articulados que costumam circular às 6h, 361 estavam nas ruas.Mesmo assim, para grande parte dos moradores, especialmente nas regiões mais dependentes do ônibus municipal, o reforço em trens, metrô e BRT não resolve toda a viagem. Muitos passageiros ainda precisam de uma linha alimentadora, de integração ou de um ônibus comum para completar o trajeto.
Nova audiência pode definir o tamanho da crise
A nova audiência desta quarta-feira, às 11h, passou a ser o ponto decisivo para saber se a paralisação será encerrada ou se o Rio enfrentará mais um dia de transporte reduzido.Enquanto a negociação não avança, o prejuízo se espalha pela cidade de forma desigual. Quem tem carro, aplicativo ou possibilidade de trabalho remoto encontra alternativas. Quem depende exclusivamente do ônibus precisa sair mais cedo, esperar mais, disputar embarque e explicar o atraso no trabalho.É nesse ponto que a greve deixa de ser apenas uma disputa entre sindicato e empresas. Ela passa a atingir diretamente a rotina de quem acorda cedo, depende do transporte público e não pode simplesmente deixar de chegar.