Premiação tem está na quarta edição e tem a proposta de ampliar oportunidades para escritores fluminenses
Tem cidade que cresce pela indústria. Outras pela força do comércio, pelo turismo ou pela agricultura. Nova Friburgo, aos poucos, parece consolidar também uma outra identidade: a de cidade que escreve.
Entre montanhas, neblina, cafés silenciosos e uma rotina que muitas vezes desacelera longe do ritmo da capital, a produção literária da Região Serrana vem encontrando espaço, reconhecimento e leitores. E isso voltou a aparecer de forma clara no Prêmio Rio de Contos, que chega à quarta edição acumulando números expressivos em todo o estado.
Dentro do projeto, a serra fluminense acabou se transformando em um dos polos mais ativos da literatura contemporânea produzida no Rio de Janeiro.
Segundo a organização do prêmio, a Região Serrana lidera o número de inscrições vindas do interior do estado e também concentra o maior número de autores selecionados fora da região metropolitana.
Nova Friburgo aparece como principal destaque dessa movimentação.
Nas três primeiras edições do prêmio, cinco autoras da serra foram selecionadas. A primeira edição contou com a presença de Kissila Muzy, de Nova Friburgo. Na segunda, foram escolhidas Carla Gruber, de Petrópolis, e Marisa Maia, de Bom Jardim. Já na terceira edição, Nova Friburgo voltou a aparecer com força através das escritoras Lúcia Pouchain e Débora Binatti.
Para quem acompanha o movimento cultural da cidade, o resultado não chega exatamente como surpresa.
Nos últimos anos, Nova Friburgo passou a reunir clubes de leitura, feiras literárias, saraus, oficinas independentes e uma produção autoral crescente, muitas vezes construída longe dos grandes centros editoriais tradicionais.
A própria idealizadora do Prêmio Rio de Contos, Bárbara Cortesi, reconhece essa característica da região.
“A Região Serrana é, disparado, a campeã de inscrições do interior. Todo ano recebemos inscrições de diversas cidades da serra, mas existe uma concentração muito forte em Nova Friburgo”, afirmou.
Ela acredita que existe uma relação quase afetiva entre o ambiente serrano e o exercício da escrita.
“Acho que a Região Serrana é uma região de escritores. Talvez o clima de montanha, a mata, o ambiente bucólico acabem favorecendo o exercício da escrita, do recolhimento e da imaginação.”
Em tom descontraído, Bárbara brinca que o ritmo das seleções já permite imaginar uma coletânea formada apenas por autores serranos.
“Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco a gente consegue fazer um livro só com autores selecionados da Região Serrana.”
O Prêmio Rio de Contos foi criado com a proposta de ampliar oportunidades para escritores fluminenses ainda pouco inseridos no mercado editorial nacional. Mais do que premiar textos, o projeto oferece formação, mentorias, atividades coletivas e acompanhamento literário ao longo de vários meses.
Desde sua criação, a iniciativa já registrou mais de 1.500 inscrições habilitadas, alcançando 56 municípios fluminenses.
A quarta edição acontece em um momento de crescimento do mercado editorial brasileiro. Em 2025, o varejo de livros registrou aumento nas vendas e o Rio de Janeiro ampliou investimentos no setor cultural, além de ter recebido o título de Capital Mundial do Livro 2025 concedido pela Unesco.
Para muitos autores do interior, iniciativas como essa acabam funcionando como uma porta que antes parecia distante demais.
Quem escreve fora da capital normalmente enfrenta obstáculos maiores para circular, publicar e encontrar espaço em eventos literários. Por isso, a presença constante da Região Serrana entre os selecionados também revela um movimento importante de descentralização cultural dentro do estado.
As inscrições para a quarta edição seguem abertas até o dia 2 de junho pelo site oficial do prêmio. O processo é gratuito e voltado para autores residentes no estado do Rio de Janeiro maiores de 18 anos que ainda não tenham ampla inserção no mercado editorial nacional.
Ao final do processo formativo, os textos selecionados integrarão uma antologia coletiva com autores fluminenses contemporâneos.