A reação da população ao fim do pagamento em dinheiro nos ônibus do Rio parece ter surtido efeito mais rápido do que muita gente imaginava.
Depois de dias de reclamações, dúvidas e relatos de passageiros preocupados com a mudança no sistema de embarque, a Prefeitura do Rio anunciou que os ônibus da cidade passarão a aceitar PIX como forma de pagamento. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (22) pelo prefeito Eduardo Cavaliere, em meio à repercussão negativa causada pela retirada gradual do dinheiro em espécie nos coletivos.
A decisão acontece poucos dias antes do prazo previsto para o fim definitivo do pagamento em dinheiro dentro dos ônibus municipais, marcado para 30 de maio.
Na prática, o novo anúncio representa uma tentativa de reduzir a tensão criada em torno do sistema Jaé, alvo de críticas desde o início da implementação.
Muita gente vinha questionando como faria para embarcar sem cartão, sem aplicativo ou até mesmo sem internet no celular. Entre os relatos que mais circularam nas redes sociais e grupos de moradores estavam preocupações de idosos, trabalhadores informais, turistas e passageiros que dependem de integrações rápidas no dia a dia.
Segundo o prefeito, o pagamento via PIX começará a funcionar antes mesmo do fim do dinheiro nos ônibus. A operação será feita diretamente nos validadores do Jaé instalados dentro dos coletivos e também em estações do transporte público.
A Prefeitura também informou que pagamentos por cartão de débito e crédito deverão ser liberados em seguida, dentro de um cronograma que ainda será detalhado.
A mudança ocorre após passageiros relatarem dificuldades logo nos primeiros testes do novo modelo. A linha 634, que liga a Ilha do Governador à Tijuca, foi uma das primeiras a deixar de aceitar dinheiro, o que gerou reclamações imediatas de usuários.
Em muitos casos, o problema não era apenas tecnológico.
Era prático.
Quem depende de ônibus todos os dias começou a se perguntar o que aconteceria em situações comuns da rotina: celular descarregado, internet instável, dificuldade com aplicativos, perda de cartão ou falta de pontos de recarga próximos.
Em uma cidade marcada por desigualdades sociais profundas, a discussão rapidamente deixou de ser apenas sobre modernização do transporte.
Virou também um debate sobre acesso.
O que muda agora
Com o novo anúncio, passageiros terão mais alternativas para embarcar nos ônibus municipais do Rio.
Além do Jaé e do Riocard, a Prefeitura promete ampliar gradualmente as formas de pagamento, incluindo PIX e cartões bancários.
Outro ponto divulgado é a criação de um cartão unitário verde, que poderá ser comprado com dinheiro em bancas de jornal e pontos de recarga espalhados pela cidade. A promessa é de que mais de mil locais estejam habilitados para atendimento.
Mesmo assim, algumas dúvidas continuam.
A integração tarifária entre ônibus seguirá funcionando apenas para usuários do cartão preto do Jaé ou pelo aplicativo oficial. Já turistas e passageiros ocasionais poderão usar o cartão verde unitário ou o app para viagens simples.
O Riocard continuará sendo aceito nas integrações intermunicipais.
Pressão aumentou após reclamações
A Prefeitura vinha defendendo a retirada do dinheiro nos ônibus como medida de segurança e modernização do sistema de transporte. Porém, a velocidade da mudança acabou provocando insegurança em parte da população.
Nos últimos dias, reportagens exibiram passageiros reclamando de dificuldades para utilizar o sistema digital. Também houve críticas sobre a falta de informação clara e sobre o curto prazo para adaptação.
O anúncio do PIX surge justamente nesse cenário de desgaste.
Nos bastidores políticos e nas redes sociais, a percepção é de que a pressão popular acelerou a necessidade de ajustes no modelo antes da retirada definitiva do dinheiro em espécie.
Enquanto parte dos passageiros vê a mudança como avanço tecnológico, outra parcela teme que a digitalização total do embarque acabe dificultando ainda mais a vida de quem já enfrenta problemas diários no transporte público.
E é justamente essa preocupação que continua dominando a conversa nas ruas, nos pontos de ônibus e dentro dos coletivos: como garantir praticidade sem excluir quem mais depende do sistema?