“Cannabis é o remédio do século XXI”, diz Sidarta Ribeiro

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Seminário debateu os benefícios e eficácia da Cannabis medicinal em doenças crônicas consideradas gravíssimas e lamenta “demonização” da substância

Na última semana, a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), com apoio da Fiocruz organizou um seminário internacional para tratar sobre a Cannabis medicinal e os importantes aspectos da sua eficácia em tratamentos de doenças graves. 

O seminário aconteceu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, reuniu cientistas, médicos e advogados que debateram o acesso, a pesquisa e a regulamentação do uso da cannabis para fins medicinais.

Entre os temas, o custo da guerra às drogas, os usos tradicionais e milenares da cannabis na medicina, os avanços obtidos por pesquisadores em diversos países e as boas notícias para os pacientes tratados com medicamentos à base da planta.

Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que fez a palestra de abertura do evento, “a cannabis é o remédio do século XXI e significa praticamente uma farmacopeia inteira”, tantos são os seus benefícios no tratamento de diversas enfermidades. Ribeiro acrescentou que “ainda neste século veremos a cannabis ser a primeira escolha médica para muitas doenças”.

Cannabis medicinal já era usada antes de Cristo 

O neurocientista fez um histórico do uso terapêutico da cannabis. “Cerca de 1,5 mil anos antes de Cristo já se fazia uso medicinal da substância. O Papiro de Ebers, daquela época, mostra o uso contra inflamação, já que a cannabis contém potentes anti-inflamatórios. E há outras substâncias na cannabis que não produzem efeitos psicoativos e são terapêuticas, estimulando o crescimento de ossos e o uso como antiepilépticos, antiproliferativos e antibacterianos.

A cannabis é uma farmacopeia, é uma planta que gera muitos usos diferentes de acordo com a combinação de substâncias”, explicou o pesquisador, que apresentou diversos outros exemplos, ao longo da História, do uso terapêutico da substância.

“Na cannabis existem cerca de 500 substâncias de interesse para a medicina. O impacto da cannabis na saúde humana só é comparável ao da penicilina, pela capacidade de combater bactérias e a eficácia na luta contra várias doenças”, disse Sidarta.

Até o final do século XIX era possível encontrar medicamentos feitos de cannabis em boticas e artigos científicos ainda da primeira metade do Oitocentos mostravam os efeitos positivos da cannabis medicinal. Somente entre as décadas de 1910 e 1930 que a planta passou a ser demonizada, com uma forte propaganda negativa.

Proibição da Cannabis e incentivo ao uso do álcool e tabaco

“São cem anos de propaganda contrária e, por outro lado, glorificação do álcool e do tabaco”, disse o neurocientista, que apresentou peças de propaganda dos anos 40 e 50 em que o tabaco era recomendado para a saúde de atletas e até de bebês. “O álcool é muito mais perigoso para as pessoas e a sociedade. Este debate foi interditado e passou décadas longe de qualquer racionalidade científica, o que impediu de termos avançado mais rapidamente, em benefício da saúde de milhões de pessoas”.

Ribeiro lembrou que há várias doenças tratáveis com cannabis. “Entre elas, autismo infantil, carcinoma, distonia, dor crônica, depressão, encefalopatia, epilepsia, esclerose, esquizofrenia, fibromialgia, paralisia cerebral, Parkinson, retardo mental e transtorno de desenvolvimento”.

Contrários à Cannabis medicinal hoje pensam diferente

O neurocientista acrescentou que os benefícios da cannabis medicinal têm atingido um número cada vez maior de pessoas. “Inclusive daqueles que, por preconceito ou desconhecimento, eram contrários ao uso terapêutico e, ao notarem os bons resultados, em si próprios ou em parentes e amigos, mudaram de ideia. Há pessoas convertendo parentes e amigos para essa causa. A informação de qualidade contribui para isso”.

A cannabis medicinal já é uma realidade em diversos países, como Alemanha, Israel, Canadá, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai, entre outros. E nos Estados Unidos está legalizada em 36 estados. “A cannabis é remédio há milênios e todos os seres humanos possuem substâncias semelhantes às da planta em seus organismos, tendo em vista o nosso sistema endocanabinoide”.

“Desprezar o uso medicinal da cannabis é um desrespeito aos nossos ancestrais”

De acordo com Ribeiro, a descoberta revolucionária se deu em 1965, quando o pesquisador israelense Rafael Mechoulam isolou o elemento Delta 9 Tetrahidrocanabinol. O THC, como é conhecida a molécula mais psicoativa da cannabis, atua como relaxante muscular e anti-inflamatório. Dentre os benefícios, produz efeito anticonvulsivo, anti-inflamatório, antidepressivo e anti-hipertensivo. Além de ser usado também como analgésico e no tratamento para aumentar o apetite. Segundo Ribeiro, “o THC tem representado uma revolução na geriatria, já que aumenta a produção de proteínas sinápticas e a velocidade neuronal”. O neurocientista comentou que experiências em laboratórios com ratos mais velhos tratados com THC ficaram tão espertos quanto camundongos mais jovens.

Tratamento oncológico

Ele também citou, no tratamento do câncer, a mitigação, por meio do uso da cannabis, dos efeitos adversos da oncoterapia. “E evidências recentes mostram uma boa sinergia entre o tratamento tradicional do câncer com canabinoides [substâncias extraídas da planta]. Para muitas dores crônicas, a cannabis também é a solução, já que os opiáceos servem mais para as dores agudas”. Ribeiro acrescentou que o canabidiol [um dos 80 canabinóides presentes na cannabis] tem demonstrado bons resultados no uso de problemas do sono. “Desprezar o uso medicinal da cannabis é um desrespeito aos nossos ancestrais, que há milhares de anos já a usavam”.

Ribeiro disse que as associações de pacientes estão conseguindo mudar a opinião e o preconceito de muitas pessoas que eram refratárias ao uso medicinal da cannabis. No entanto, ele lembra que os preços desses medicamentos ainda são muito altos e por isso proibitivos para a maior parte da população. “É urgente que esses valores sejam barateados e que os medicamentos à base de cannabis consigam chegar aos mais pobres, com fomento a pequenas empresas produtoras, no âmbito privado, e disponibilidade no sistema público de saúde, por meio de investimentos governamentais”.

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