A maior transformação urbana desde o Porto Maravilha começa onde nasceu o Rio moderno

Sinal verde: Rio vai reconstruir “berço da cidade” e derrubar viaduto central

Promessa de um novo cartão-postal pode nascer onde hoje muitos enxergam apenas passagem 

Há lugares que carregam a história de uma cidade. Outros carregam também suas cicatrizes. A Praça Onze reúne as duas coisas. Foi ali que o samba encontrou espaço para crescer, que diferentes povos ajudaram a construir a identidade carioca e que o Centro se expandiu ao longo das décadas. Com o tempo, porém, parte dessa região passou a conviver com imóveis vazios, circulação reduzida de pessoas, degradação urbana e perda de investimentos. Agora, a Prefeitura do Rio pretende mudar completamente esse cenário. A sanção da Lei Complementar 301 não representa apenas uma mudança urbanística. Ela abre caminho para um projeto que pretende devolver vida permanente a uma região que, durante muito tempo, ficou conhecida muito mais pelo potencial perdido do que pelas oportunidades.

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Muito mais do que novos prédios

Quando se fala em revitalização, muita gente imagina apenas construções novas. O Praça Onze Maravilha vai muito além disso. A proposta reúne moradia, cultura, mobilidade, patrimônio histórico, economia criativa e ocupação dos espaços públicos. A expectativa da Prefeitura é atrair cerca de 37 mil novas unidades residenciais ao longo das próximas duas décadas. Isso significa moradores permanentes. Mais gente morando gera movimento. Movimento gera comércio. Comércio gera empregos. E ruas movimentadas tendem a ser mais seguras do que espaços vazios durante boa parte do dia. É uma lógica que já começou a aparecer em partes do Reviver Centro e que agora será expandida para uma das áreas mais simbólicas da cidade.

O Sambódromo deixa de ser um endereço de Carnaval

Talvez a mudança mais simbólica esteja justamente no entorno da Passarela do Samba. Hoje, milhares de pessoas ocupam aquele espaço durante poucos dias por ano. O objetivo da Prefeitura é inverter essa lógica. A ideia é transformar o Sambódromo em um polo permanente de turismo, eventos, educação patrimonial e economia criativa. Se isso acontecer, a região deixará de depender exclusivamente do Carnaval para movimentar hotéis, bares, restaurantes, comércio e serviços. A proposta é fazer com que o coração cultural do samba também se torne um centro de atividades durante os outros 360 dias do ano.

Uma avenida no lugar de um elevado

Outra mudança promete alterar completamente a paisagem. O Elevado 31 de Março deverá dar lugar à futura Avenida da Democracia. Mais do que uma troca de nome, a intervenção pretende reconectar bairros que hoje convivem separados por uma estrutura de concreto construída décadas atrás. Santa Teresa, Cidade Nova, Catumbi, Rio Comprido e a própria Praça Onze deverão ganhar uma integração física muito maior com o Centro Histórico e a Região Portuária. Em várias cidades do mundo, a retirada de elevados urbanos abriu espaço para novos empreendimentos, áreas de convivência e valorização imobiliária. É exatamente esse caminho que o Rio pretende seguir.

Cultura como motor da economia

Um dos símbolos do projeto será a futura Biblioteca dos Saberes, assinada pelo arquiteto Francis Kéré. Mas talvez sua principal função seja mostrar que cultura não aparece apenas como preservação da memória. Ela passa a ser entendida também como desenvolvimento econômico. Museus, bibliotecas, centros culturais e patrimônios restaurados atraem visitantes, estimulam novos negócios e fortalecem toda a economia do entorno. A recuperação da histórica Vila Operária Salvador de Sá segue a mesma lógica. Preservar passa a ser também investir.

O mercado já olha para a região

Outro aspecto importante do projeto é o incentivo para recuperação de imóveis antigos. Os chamados retrofits permitem transformar prédios vazios em apartamentos, escritórios, hotéis e empreendimentos comerciais. Em vez de expandir a cidade para novas áreas, a proposta busca ocupar espaços que já possuem infraestrutura instalada. Esse modelo costuma reduzir custos públicos e acelerar a recuperação econômica das regiões centrais.

Um projeto para as próximas décadas

A Prefeitura estima investimentos da ordem de R$ 1,7 bilhão ao longo dos próximos vinte anos. Parte desse dinheiro deverá ser movimentada pela iniciativa privada, impulsionada por incentivos urbanísticos e fiscais. Ao mesmo tempo, o município aposta que o aumento da circulação de moradores, trabalhadores e turistas será suficiente para criar um novo ciclo econômico no coração do Rio. O sucesso do projeto dependerá da execução das obras, da participação da iniciativa privada e da capacidade de transformar planos em resultados concretos. Mas uma coisa já está clara. O Praça Onze Maravilha não foi pensado apenas para renovar uma paisagem. Foi concebido para tentar devolver ao Centro do Rio o protagonismo que ele perdeu ao longo das últimas décadas.

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