Levantamento do EcoSerrano mostrou grande diferença entre fiscalização, projetos de impacto e produção concentrada em homenagens. Teve vereador que “não fez nada”. Veja o ranking
A Câmara Municipal de Nova Friburgo retoma nesta terça-feira, 4 de agosto, as sessões legislativas após duas semanas de recesso. Com o início do segundo semestre, uma pergunta passa a acompanhar parte dos 21 vereadores: quem terminou os primeiros meses do ano com atuação de baixo impacto conseguirá mudar de posição até dezembro?A cobrança ganhou força depois que o Portal EcoSerrano publicou um levantamento sobre a produção individual dos parlamentares no primeiro período legislativo de 2026. A análise considerou exclusivamente as matérias registradas no sistema oficial da Câmara e atribuiu pesos diferentes conforme a capacidade de cada proposição de fiscalizar o Executivo, provocar debate público ou produzir benefício material para a população.A reportagem teve intensa repercussão nos bastidores do Legislativo. Também provocou críticas de vereadores e pessoas ligadas aos gabinetes, inclusive por parte de parlamentares colocados nas faixas intermediária e inferior do ranking.Parte das reações, porém, demonstrou desconhecimento dos próprios critérios utilizados. O levantamento nunca afirmou que a quantidade bruta de matérias, sozinha, definiria quem trabalhou mais. Ao contrário: explicou que requerimentos sobre contratos, Previdência, hospitais e concessões não poderiam receber o mesmo valor que moções de louvor, homenagens, cidadanias ou nomes de rua.O retorno das sessões oferece aos vereadores a oportunidade de responder no campo em que deveriam responder: com fiscalização, projetos relevantes, debates públicos e atuação concreta.
Cada tipo de matéria recebeu um valor diferente, de acordo com sua capacidade de gerar fiscalização, debate ou efeito prático.Peso máximo — 5 pontosReceberam o maior peso:
requerimentos de informação;
decretos legislativos de caráter fiscalizatório;
sessões específicas destinadas a debates públicos.
Esses instrumentos permitem cobrar documentos, contratos, despesas, explicações do Executivo e informações sobre serviços municipais.Peso alto — 4 pontosEntraram nessa faixa:
audiências públicas;
projetos de lei com impacto material;
emendas à Lei Orgânica ou leis complementares consideradas relevantes.
São propostas que podem interferir diretamente em políticas públicas, direitos, funcionamento dos serviços ou organização administrativa.Peso intermediário — de 2 a 3 pontosForam classificados nessa faixa:
campanhas, selos ou projetos de alcance parcial;
projetos de indicação legislativa.
Essas proposições podem ter utilidade, mas geralmente possuem alcance mais limitado ou dependem de decisão posterior do Poder Executivo.Peso reduzido — 0,5 pontoReceberam peso reduzido:
convites ligados a debates públicos;
nomes de ruas;
reconhecimento de patrimônio;
criação de datas;
concessões de utilidade pública;
cidadanias;
comendas;
prêmios;
sessões solenes.
O levantamento reconheceu que essas matérias podem possuir importância simbólica, mas normalmente não alteram serviços como saúde, educação, transporte, segurança ou fiscalização do dinheiro público.Menor peso — 0,25 pontoAs moções de louvor ou congratulações receberam o menor peso entre as matérias consideradas, por terem caráter essencialmente honorífico.Sem pontuaçãoRequerimentos exclusivamente processuais, utilizados apenas para movimentar procedimentos internos, não receberam pontos.Os pesos utilizados no levantamento foram divulgados de forma aberta e estavam detalhados na reportagem original.
Ranking completo, sem divulgação das pontuações
O ranking abaixo mantém a classificação divulgada após o encerramento do primeiro período legislativo, mas não apresenta a pontuação individual de cada vereador:1º — Cláudio Damião 2º — Maicon Gonçalves 3º — Marcos Marins 4º — Maiara Felício 5º — Claudio Leandro 6º — Cascão do Povo 7º — Joelson do Pote 8º — Christiano Huguenin 9º — Evandro Miguel 10º — Ghabriel do Zezinho 11º — Isaque Demani 12º — Rômulo Pimentel 13º — Walace Piran 14º — Max Bill 15º — Bruno Silva 16º — Dirceu Tardem 17º — José Carlos 18º — Carlinhos do Kiko 19º — Janio de Carvalho 20º — Angelo Gaguinho 21º — Tia KarlaA classificação colocou Cláudio Damião na liderança e Tia Karla na última posição. O grupo chamado editorialmente de “Zona de Rebaixamento” reuniu os cinco últimos colocados: José Carlos, Carlinhos do Kiko, Janio de Carvalho, Angelo Gaguinho e Tia Karla.A expressão não representa condenação política, jurídica ou moral. Ela identifica, dentro do método adotado, os parlamentares com menor volume de matérias fiscalizatórias e de impacto direto no período analisado.
O que o ranking não analisou
O levantamento mediu a qualidade, o alcance e o potencial das matérias apresentadas individualmente.Não foram avaliados:
presença em plenário;
comportamento durante votações;
atuação nas comissões;
ofícios;
atendimento realizado nos gabinetes;
emendas parlamentares;
participação informal nos bairros.
Também não se afirmou que todo projeto bem pontuado seria juridicamente viável ou produziria automaticamente resultado concreto.Portanto, um vereador poderia contestar a posição apresentando outros aspectos do mandato. O que não muda é o fato de que, nos registros oficiais analisados, alguns parlamentares fiscalizaram, cobraram documentos e apresentaram propostas materiais, enquanto outros concentraram a produção em homenagens ou nem isso.
Segundo semestre terá projetos de grande impacto
A retomada ocorre em um período no qual assuntos importantes ainda deverão passar pelo plenário.Entre eles está a proposta relacionada às emendas impositivas, apelidada por críticos de “orçamento secreto friburguense” devido às semelhanças apontadas com mecanismos utilizados no Congresso Nacional.O projeto já provoca polêmica por envolver a possibilidade de vereadores direcionarem parte do orçamento municipal. A discussão deverá abordar critérios como transparência, fiscalização, beneficiários, execução dos recursos e eventuais impactos sobre outras despesas da Prefeitura.Como a proposta ainda deverá passar pelo processo legislativo, será necessário acompanhar o conteúdo final, possíveis emendas, posicionamentos dos vereadores e o resultado das votações. O apelido é uma caracterização política usada no debate e não substitui a análise jurídica e orçamentária do projeto.
Cinco meses para mostrar mudança
O primeiro ranking não encerra a avaliação dos mandatos. Ele é um retrato do período entre o início do ano legislativo e a última sessão antes do recesso, realizada em 16 de julho.A análise será refeita ao fim do segundo período. Será possível verificar quem manteve o desempenho, quem avançou, quem caiu e quem continuou com uma produção concentrada em matérias de baixo impacto material.Para os vereadores que ficaram nas últimas posições, há tempo para reagir. Isso exige mais do que críticas à imprensa ou incômodo com o resultado. Exige usar as ferramentas do mandato para investigar contratos, cobrar serviços, questionar gastos, abrir debates e apresentar propostas capazes de atingir a vida real dos moradores.A população também terá papel central. As sessões, os projetos apresentados, os requerimentos, as votações e a produção individual dos vereadores são públicos. Cobrar explicações, acompanhar o plenário e questionar diretamente os gabinetes são formas de exigir que os mandatos cumpram a função para a qual foram eleitos.Ao final de dezembro, o sistema oficial da própria Câmara mostrará quem aproveitou o segundo semestre para trabalhar e quem preferiu continuar devendo serviço à população.